Three Monkeys, de Nuri Bilge Ceylan

João Toledo

Há que se ressaltar, em primeiro lugar, a competência de Ceylan em criar quadros que, por si só, são deslumbrantes. Essa imagem tem um poder de impacto muito grande, sem, todavia, ser extravagante. O poder dos contrastes, do jogo cênico rebuscado, deixa bem às claras o total controle de cada corte e cada elemento em cena. Não se tenta esconder que há um discurso minuciosamente sendo construído diante de nós; Ceylan opera como um maestro seus marionetes diante daquele universo todo erguido de pompa, ostentoso de significados.

No mundo contemporâneo, o clichê é espírito de época, e o cinema parece ser um de seus principais veículos de propagação e sustentação. Não se pode, no entanto, condenar os clichês; fugir deles comumente leva a algo que podemos chamar de efeito iatrogênico, ou seja, do mal causado pelo próprio tratamento. Não estou com isso dizendo que não há espaço para a originalidade, nem para a recriação, mas a sociedade é essencialmente fundada em clichês, e seria um erro evitá-los tendo em vista que fazem parte de nosso cotidiano. Mas, mais do que extrair clichês do cotidiano, muitas vezes é o próprio cinema que, como a linguagem, cria signos de acesso mais direto, que não precisam de uma mediação intelectual. Devido à massiva exploração dessas imagens, chegamos ao significado sem qualquer reflexão. Pontualmente, isso pode ser interessante, mas tem se tornado vício de um, assim chamado cinema de arte.

A solidão do homem contemporâneo, os problemas financeiros sobrepujando questões afetivas, o silêncio, a incomunicabilidade; todas questões pertinentes, questões com as quais convivemos. No entanto, criar um catálogo de índices que simplesmente apontam para essas questões é diferente de tratar delas: a solidão representada por grandes planos gerais; a tristeza representada pela chuva; a asfixia do cotidiano representada pelos céus nublados; a opressão do lar representada pelos personagens em silhueta dentro de casa; a vontade de escapar representada pela paisagem viva vista através da janela; a ambigüidade dos personagens divididos representada por imagens de reflexos que se confundem com imagens diretas.

É comum que se caia, vez ou outra, nesse tipo de armadilha da fácil representação, mas Ceylan parece integralmente entregue a ela. O diretor turco filma muitos dos chavões do dito “cinema de arte” – entre eles, os supracitados – e os soterra por debaixo de imagens impactantes. Ceylan arquiteta imagens que, se traduzidas em idéias, são quase sempre banais, mas que conseguem manter alguma força no impacto que antecede à cognição. Dessa forma, desloca o clichê de um âmbito visual desgastado e parece em alguns momentos ser capaz de trazer novo fôlego a essas representações. No entanto, essa estrutura não se sustenta, desmorona fácil quando, ao longo da narrativa, percebe-se o que está por trás de cada imagem – a plástica apenas esconde o lugar-comum, não o transforma, não o recria, não acrescenta em nada. O próprio título do filme corrobora para a idéia – que poderia até passar desapercebida por quem deu mais atenção ao filme como um espetáculo de slide-show – de que não há nada por trás dos clichês além de um discurso barato e esquemático. Three Monkeys (Três Macacos em português), seriam aqueles macacos que tapam os olhos, a boca e os ouvidos, ignorando aquilo com o qual preferem não se envolver, preferem não saber ou ignorar.

Todos os membros da família se voltam para si próprios, se recolhem aos seus universos particulares. O jovem, depois de ser espancado, chega em casa e tenta ir em silêncio até seu quarto. A mãe se tranca no quarto, com todos os seus segredos e seu amante. O marido está na cadeia, alheio ao que ocorre aqui fora. E sempre que se deparam com o universo do outro, se retraem e não são capazes de agir. O motivo do espancamento nunca é perguntado, nem revelado. O garoto observa a faca na bancada quando percebe que sua mãe está tendo um caso, mas permanece imóvel. O marido flagra sua mulher a ponto de cometer suicídio e rapidamente se esconde para não ser visto, para não interferir. Eles se trombam, mas se desviam uns dos outros, como se quisessem sempre ignorar aquilo que sabem. E tudo isso é urdido de forma muito insistente e excessivamente maquinada, quase mecânica, como se a arte fosse objetiva, dependesse de alicerces concretos, cálculos matemáticos, teses e metas claras a serem atingidas. Trata-se, logo, de um filme a discursar sobre as miseráveis vidas perdidas de quem não se ouve e não confronta suas próprias contradições.

O filme, ainda que bastante frio, se envolve de um complexo jogo com a perspectiva, com profundidade de campo, com uma angulação que proporciona uma curiosa relação entre ações concomitantes em diversas dimensões do quadro. Em quase todos os enquadramentos há ações simultâneas ocorrendo em primeiro plano e em segundo ou terceiro plano. Um carro passa ao fundo e um leve movimento de câmera revela um personagem em primeiro plano a observar o veículo. É uma mise-en-scène profundamente tributária do cinema de Orson Welles, todavia, toda essa precisão cênica está no fundo a serviço de quê? Pra que servem seus belos enquadramentos e sua calculista coreografia de atores, objetos e movimentos de câmera? Ceylan talvez devesse empregar todo o seu talento em um projeto menos pretensamente artístico, menos mascarado.

Filmes citados:
Three Monkeys (Idem, 2008/Nuri Bilge Ceylan)

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