Debates da mostra Cine Bh - Cinema, independência e Fórmula 1

por Mariana Souto

 

 

Este texto diz respeito aos debates ocorridos na mostra CineBH 2008, em especial o 3º, nomeado “A distribuição independente”. Seu formato se aproxima de um desabafo pessoal, ainda que tenha encontrado grande ressonância em colegas presentes. Não se pretende aqui criticar especificamente nenhum dos participantes e muito menos sua carreira no campo cinematográfico, e sim apenas registrar pensamentos acerca desse momento específico, um recorte da tarde de 02/11/08.

 

O 1º debate “Destaque na Independência” contou com as presenças de Pedro Rovai, José Eduardo Belmonte, Carlos Reinchenbach e Sara Silveira, tendo a mediação do crítico Fernando Veríssimo. O 2º, “O berço da independência”, mediado pela produtora Márcia Valadares, contou com Cavi Borges, André Sampaio, Guilherme Fiúza e Jefferson De. Enquanto o primeiro traçou um panorama histórico da produção independente nacional, com suas vitórias e dificuldades, o segundo se ateve mais especificamente à produção contemporânea, abordando os formatos de curta e longa-metragem e o que caracteriza o momento de transição de um para outro. Ambos os debates foram marcados pela imersão e entrega até mesmo afetiva dos participantes, cada um falando de sua trajetória mas sempre interessados em ouvir o que os demais traziam ao debate para, a partir daí, construir novos pensamentos, reformular idéias e abarcar uma realidade mais ampla.

 

O 3º debate, que contou com a mediação de Paulo Sérgio de Almeida, teve Marco Aurélio Marcondes, Paulo Souza, Eduardo Cerqueira e André Sturn como convidados. Coincidindo com dia de Fórmula 1, começou com 45 minutos de atraso, não se sabe - já que nenhuma explicação foi dada ao público - se por motivo de ajustes técnicos ou se para que alguns pudessem ouvir a largada da corrida. A fala inicial do mediador, aliás, já demonstrava seu desagrado em estar ali naquele momento, algo como: “não sei quanto a vocês, mas estou achando terrível estar aqui agora”. Paulo Sérgio de Almeida fez uma introdução geral, levantando alguns problemas envolvidos na produção e distribuição nacional lendo, praticamente palavra por palavra, uma seqüência de slides.

 

A fala inicial foi de André Sturn, representante da Pandora Filmes. André disse que, se há alguns anos atrás o problema do cinema nacional se concentrava no gargalo da distribuição, essa etapa já foi resolvida. Segundo ele, os filmes brasileiros conseguem, de uma forma ou de outra, serem distribuídos. André nos ofereceu o número de quantos filmes nacionais são lançados nos cinemas por ano e a bilheteria total. Acredito que para realmente saber se o problema da distribuição foi resolvido, precisaríamos também do número de filmes produzidos para assim poder verificar se a equação produção/distribuição está mesmo equilibrada. Esta era uma pergunta que eu faria após a finalização da parte expositiva dos palestrantes, no momento de abertura para a platéia, mas que não pôde de fato ser feita, como se verá logo mais nesse texto.

 

Acredito que a exposição de um dado significativo como esse - a quantidade de filmes produzidos no Brasil por ano - era essencial para poder partilhar do raciocínio de André, já que sua fala foi contra tudo que temos ouvido recentemente sobre o cinema nacional, inclusive nos debates anteriores por diretores de carreira sólida. Reinchenbach, no 1º dia, disse que seu filme Garotas do ABC não chegou até seu público-alvo e motivo de seu engajamento, as próprias operárias da região do ABC, porque não conseguiu distribuir o filme e sustentá-lo nos cinemas situados nessa mesma região.

 

Na falta de dados e embasamento para uma informação tão forte para o contexto do nosso cinema, tornou-se difícil compactuar da opinião de Sturn. Pode ser que ele esteja mesmo certo e que tenhamos que rever, portanto, nosso entendimento da problemática do cinema brasileiro, mas não foi o que aconteceu nesse debate. A partir dessa afirmação, a fala de André, assim como a dos demais, se concentrou no problema da acessibilidade do público aos filmes. Sendo assim, quase nada se falou efetivamente de distribuição, de formas de disseminação e veiculação da produção, dos modos de se facilitar o lançamento comercial nos cinemas dos filmes produzidos. Todo o discurso se centrou na etapa cinema-público, bem mais restrita do que a esperada filmes-cinema-público.

 

Dentro desse universo, André trouxe para a mesa pensamentos valiosos e críticas muito pertinentes, sendo o mais lúcido e coerente entre os participantes. Discorreu sobre seus projetos, realizados em São Paulo mas com possibilidades de implantação nacional, para facilitar o acesso da população ao cinema e apresentou alternativas concretas para esse problema mostrando, através de suas experiências, que se o acesso é facilitado e o preço do ingresso reduzido, o público freqüenta os cinemas e tem, sim, interesse em assistir a filmes nacionais.

 

Daí para a frente, o que se viu no debate foi um discurso centrado no individualismo; cada um falou somente de si e de suas experiências, lendo slides projetados na tela. Marco Aurélio Marcondes apresentou a pioneira Moviemobz e seu funcionamento, inclusive entrando no site e mostrando, ao vivo, como se dá a navegação. Diante da prolixidade dos debatedores que o precederam e do enorme tempo gasto até então, Eduardo Cerqueira, figura de muito interesse para o platéia por ser ao mesmo tempo distribuidor e exibidor, sintetizou sua fala alegando que seria melhor abrirem rapidamente para o debate com o público, colocando-se à disposição para responder perguntas. Então veio Paulo Souza, que leu mais slides sobre a realização do filme 3 Efes, de Carlos Gerbase.

 

Neste encontro, nem sequer foi esboçada uma tentativa de visão profunda ou perspicaz sobre a distribuição nacional como um todo, algo que poderia ter sido empreendido pelo mediador, que teria a função de conectar e relacionar discursos, seja percebendo recorrências ou apontando disparidades, mas de toda forma costurando as falas e opiniões que emergiam da mesa. Em alguns momentos, parecia que o debate tinha se transformado em espaço para propaganda dos feitos e realizações de cada participante e suas respectivas empresas, instituições, projetos ou mesmo filmes.

 

A tentativa de união, a visão politizada dos fenômenos à nossa volta e do cinema como um processo complexo, que apareceu nos debates anteriores, com destaque para a participação do produtor e diretor Guilherme Fiúza, não estava presente neste 3º debate. Contudo, é importante ressaltar que essa visão de união – que ocorreria independente de diferenças pessoais e artísticas sem tentar minimizá-las, acontecendo no sentido de um esforço para somar forças, buscar caminhos em conjunto e adquirir uma consciência de classe – não seria desejável somente no interior de cada debate, mas na relação entre os vários debates. Foi raro ver participantes de um dos debates na platéia de outro, como se produção e distribuição fossem etapas completamente estanques e distintas do todo que é o cinema.

 

A pequena presença da classe cinematográfica mineira em debates como os organizados pela mostra já é sintomática de uma desunião, de um desinteresse por pensar alternativas e formas de associação para solução dos grandes problemas atravessados pelos realizadores individualmente. Cada um se preocupa apenas consigo e seu filme, parecendo não atentar para o fato de que as formações coletivas já se provaram saídas interessantes para o fortalecimento do cinema – exemplo da Teia ou da Camisa Listrada em Belo Horizonte. Se a freqüência já é baixa em cada debate, provavelmente é querer demais que as pessoas participem de todos os debates e não apenas daquele que se interessem mais no momento “tenho um filme pronto debaixo do braço para distribuir, então vou ao debate de distribuição”.

 

Em vários momentos sentimos falta de pessoas de áreas diversas do cinema para ampliação da discussão, para que se pudesse pensar cada etapa com suas nuances, entendendo cada uma das partes sob um novo prisma. Se produtores, diretores, distribuidores e exibidores aproveitassem a oportunidade de um evento cinematográfico para discutir, ouvir e trocar seus diferentes pontos de vista, o cinema nacional seria, se não melhor, certamente mais articulado.

 

Durante esse 3º debate foi possível perceber posturas esquizofrênicas e contraditórias de algumas pessoas diante do cinema e da arte. A falta de seriedade dos participantes transformou o que deveria ser uma discussão séria em carnaval, pizza. Ouvimos um estrangeirismo a cada frase, em expressões completamente desnecessárias; aprendemos, por exemplo, que é importante ficar “up to date” – e não simplesmente atualizados. Marco Aurélio Marcondes, logo após se dizer marxista, gritava “Next! Next!” para que a moça do equipamento trocasse o slide, entre comentários grosseiros quando ela não o acompanhava. Pessoas envolvidas na problemática do cinema nacional, que viajaram para participar do debate se engajavam nas mais ridículas situações. Paulo Sérgio de Almeida, mediador, abandonou a mesa em plena discussão para se esconder atrás da tela (de onde víamos suas pernas) e ouvir a corrida num radinho de pilha. Quando foi flagrado, voltou à mesa e não só não desligou o aparelho como o colocou no microfone para que todos parassem as reflexões e ouvissem fórmula 1 por alguns minutos.

 

Algumas pessoas da platéia, ofendidas com o desrespeito, abandonaram o Cine Tenda. Preferi ficar para poder me manifestar ao fim do debate, coisa que não foi possível, tamanha a delonga dos participantes da mesa. Marco Aurélio Marcondes, que já tinha exposto em detalhes a proposta do Moviemobz, pediu mais alguns minutos para se estender e foi atendido pelo mediador. Quando finalmente encerraram essa etapa, o tempo para perguntas foi quase inexistente e apenas duas pessoas conseguiram a palavra. O debate, que poderia ter se estendido para além do horário, foi encerrado por Paulo Sérgio de Almeida, que tinha horário para viajar. No debate do dia anterior, Guilherme Fiúza, que por um compromisso teria que sair mais cedo, conseguiu desmarcá-lo, permanecendo até o fim e Cavi Borges, que também tinha horário para pegar um vôo, se despediu e o debate continuou com os demais convidados e a platéia.

 

Na impossibilidade de participação do público, optei por escrever este texto e expressar a frustração e o desrespeito sentidos por alguns dos presentes. Por mais que os debatedores tenham trajetórias importantes e admiráveis dentro do cinema nacional, sendo referências em suas áreas, não se pode ignorar este tipo de comportamento inadequado. A condição de relevância reconhecida no cenário cinematográfico brasileiro não faz com que sejam isentos de críticas e questionamentos em determinado aspecto. Pelo que foi percebido, a autocrítica, aliás, é um ponto importante a ser desenvolvido dentro da própria classe – e isso obviamente não vale só para os citados. Se, como eles apontaram, o debate não teve um tom de lamúria e reclamação que se costuma ver em outros espaços de discussão, caiu num otimismo ingênuo e numa impressionante falta de autocrítica e compromisso. Os convidados se enveredaram em excessivas autocongratulações, cumprimentando uns aos outros pelo “brilhante discurso”. Na conclusão, Paulo Sérgio de Almeida espantosamente se disse muito satisfeito e elogiou toda a condução do debate – ainda que palestra fosse o termo mais adequado.

 

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