Alma Corsária, de Carlos Reichenbach

por Leonardo Amaral

 

Antes de a sessão ter início, Carlos Reichenbach, em companhia da homenageada da Mostra Cinebh, Sara Silveira, afirmou ser Alma Corsária um filme de amizade (algo confirmado pelo próprio prólogo do longa) e de grande esforço e desdobramento (o cineasta assina a direção, o roteiro, a fotografia e trilha musical do filme). Logo, um filme feito em um processamento artesanal, livre, realizado de acordo com o que realmente o cineasta queria colocar para fora, exteriorizar ao seu público um certo questionamento ao próprio fazer artístico, representado pelos amigos poetas que se encontram em uma pastelaria no centro paulistano. Alma Corsária é o próprio processo cinematográfico, diz muito de uma necessidade de se colocar na sala escura as ansiedades, devaneios, poesias e imagens de um diretor e seu filme.

Reichenbach constrói um plano de fundo excêntrico e apaixonado para o cinema que ele verdadeiramente acredita, e ao espectador cabe a prazerosa tarefa de deixar-se ir, adentrar fundo um universo propiciado por um cinema técnica e esteticamente impecável e inquestionável. O adjetivismo e o elogio se fazem necessários, pois não é um filme meramente simples; ao contrário, é um filme capaz de refletir toda uma carga libertária em uma seqüência em que a imagem (e a força que ela implica) diz absolutamente tudo: Bertrand Duarte corre pelas ruas de São Paulo acompanhado por um travelling; pelo caminho percorrido ficam as marcas, um passado e os traços da cidade; a corrida é sublime,  do homem em busca do encontro consigo mesmo, se desprendendo de tudo o que o cerca e acompanhado apenas de sua alma desbravadora, corsária.

 

Alma corsária é a representação de uma época, sem, no entanto, se mostrar datado: é uma visão romântica e questionadora de um tempo, com fragmentos de lembrança e sonhos no meio do caos de São Paulo. A cidade é sujeito da ação, ela interfere diretamente na vida dos personagens ao mesmo tempo em que se modifica e se constrói por meio do olhar desses e também do espectador. Cidade-agente, que sufoca e ao mesmo tempo circunda – como no primeiro movimento panorâmico do filme que nos apresenta e nos insere em São Paulo, bem como na tentativa de suicídio, em que a câmera parte de baixo, dando-nos a perspectiva contrária do homem que está preste a pular, para, posteriormente nos colocar quase ao seu lado: sobre a ponte, com a cidade abaixo, aos nossos olhos, em uma espécie de visão paradoxal do tudo e do nada. A sua salvação está também na cidade, no outro que passa e o oferece o gesto altruísta – Reichenbach é sobretudo um humanista.

 

O mundo de muitos dos filmes do diretor é composto de um universo que abrange a cidade que se coloca ao mesmo tempo como sonho e pesadelo; poeta moderno em busca das ambigüidades e paradoxismos do espaço urbano, Rivaldo Torres (Bertrand Duarte) é o personagem vagante e confinado nesses espaços, símbolo de uma geração e de um tempo em constante mutação. A narrativa de Alma corsária se organiza, de uma maneira geral, por meio de uma evolução temporal que percorre, em especial, os anos 1950 e 1960 (Reichenbach já ressaltara ser esses os anos de sua infância e mocidade e o filme que diz muito do próprio autor), e a passagem de tempo é demarcada através dos fatos, concepções políticas e culturais, por vezes dados de maneira irônica ou simbólica, como no momento do sonho de Rivaldo, em que, em uma janela ao lado de sua cama, são refletidas fotos de figurões como Mão Tse-Tung ou Jean-Luc Godard ao lado de uma mulher apresentando seus seios fartos à mostra. Ideário, sonho e sensualidade são na verdade um só.


Alma Corsária é, acima de tudo, um Debussy tocado pelas mãos do homem comum e negro na Boca do Lixo. A arte nos dedos do próprio povo, a alma da cidade, que, nos filmes de Reichenbach, ainda tem tempo de se olhar e reunir em um bar de São Paulo. Clair de Lune, grande obra impressionista de Claude Debussy, ao alcance de todos – representados por figuras excêntricas como o halterofilista que se exibe enquanto os outros contemplam e vivem um momento sublime. Ao mesmo tempo, somos levados, ainda sob esse efeito letárgico da música e das imagens, aos devaneios e sonhos que se misturam a fragmentos filmados em super8 por Carlos Oscar Reichenbach - pai do diretor em registro de algumas de suas viagens -, o que nos conduz a uma espécie de experiência simbolista. Lirismo único, potente, latente, de resgate da própria arte, um encontro com o passado para dizer do ser humano. Possibilidade do cinema como também o lugar da poesia.

 

Filmes citados:

Alma corsária (idem, 1993/Carlos Reichenbach)

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