Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle

por Ursula Rösele

 

 

Loki é o nome do disco gravado por Arnaldo Baptista, líder da banda Mutantes, em 1974. Pós-Rita Lee e pós-Mutantes, a obra é considerada por muitos, um dos maiores discos de rock da história da música nacional. Com uma história contundente e pesada em si, o músico traz para o documentário de Fontenelle um vigor que – ainda mais nas circunstâncias em que foi exibido na CineBH – praticamente dispensa críticas em relação a seus “senões” técnicos.

 

O filme possui uma coragem muito grande. Expõe todo o abismo em que o músico afundou ao longo da trajetória final dos Mutantes e do que se seguiu à separação de Rita Lee, através de depoimentos intensamente emocionados de todos aqueles que fizeram parte de sua vida e com a ausência e silêncio absoluto de sua ex-mulher e ex-companheira de banda. Fala-se em Rita Lee o tempo todo, seu rosto aparece o tempo todo, mas a impossibilidade de sua presença grita na tela. Aos fãs e conhecedores da trajetória da banda, é público e notório que seu rompimento com a banda possui duas versões: segundo ela, a banda a expulsou, pois iriam seguir um estilo progressivo e ela não caberia mais. Segundo os outros integrantes, ela apareceu um dia decidida a sair da banda sem maiores explicações.

 

O universo das drogas, o descolamento da realidade e a fama meteórica fazem parte constante da cronologia da banda e principalmente da queda e sofrida batalha por levantar de Arnaldo Baptista. O músico entrou num surto praticamente irreversível com as drogas, que desencadeou em um pulo do terceiro andar de um hospital psiquiátrico o deixando um mês em coma e em uma loucura quase declarada. Apesar de tudo, Arnaldo parece manter em algum lugar de seu olhar uma lucidez imensa, um espaço para a arte que é inerente. Atualmente ele mora em Minas Gerais com a mulher que o salvou do fim, pinta diversos quadros repletos de frases que aludem sua vida e toca piano como se não tivesse passado por nenhuma circunstância que o separasse da música.

 

Todas essas questões estão presentes em Loki, além da participação de músicos como Tom Zé, Liminha, Gilberto Gil, Lobão, Sean Lennon, ex-integrantes dos Mutantes, dentre outros que fazem muita questão de exaltá-lo, de admitir sentimentos de culpa pelo período em que ele esteve em crise (como o irmão, por exemplo) e de comentar sob diversos aspectos o apogeu e queda da banda e de Arnaldo. A contundência com que tudo é exposto é o ponto alto do filme. Além disso, na sessão estiveram presentes o diretor, Arnaldo Baptista e sua atual mulher.

 

O filme ainda contou com diversos minutos de uma platéia aplaudindo o músico de pé, que posicionou a mão no peito e sorriu em silêncio. Uma sessão histórica para fechar a noite e deixar a forte sensação de que o cinema merece momentos como esse e que uma vida como a dele merece espaço no cinema.

 

 

Filme Citado:

Loki – Arnaldo Baptista (idem, 2008/Paulo Henrique Fontenelle)

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