Pirinop, meu primeiro contato, de Mari Corrêa e Karané Ikpeng

por Leonardo Amaral

 

Pirinop, meu primeiro contato é um filme de olhares em seu processo de descoberta: dos índios perante o aparato técnico que os impulsiona em relação à encenação e a narrativa, da câmera que percorre e invade um território e um universo particular e dos próprios autores do longa, que falam culturalmente de lugares discursivos diferentes. A comparação com Serras da desordem é, de cara, plausível e recorrente, pelas questões que aborda do indígena fora de sua terra, de seu contexto, bem como da forma estética de lidar com a encenação do fato já ocorrido, sem que esse, no entanto, seja uma simples reprodução – ela [forma estética] diz muito do próprio processo fílmico e da operação de inscrição do próprio corpo dentro de um espaço e tempo diegético. Mari Corrêa leva para a aldeia dos Txicão todo um aparato cinematográfico para, juntamente com Karané Ikpeng, membro da comunidade, remontar todo um passado de abandono, iniciado com a transferência da tribo para outro local em razão dos conflitos com posseiros e exploradores ambientais. Fotografias, registros de imagens e depoimentos dos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Bôas – suas falas e ações se misturam à narrativa dos próprios índios, que, de uma certa maneira, vão construindo um jogo complexo de representação do real.

 

A câmera se insere no cotidiano da aldeia para captar momentos que transitam entre o flagrante e o construído de maneira cênica. Aviões percorrem o céu enquanto os índios da tribo tentam alvejá-los, pois os reconhecem como grandes pássaros e inimigos prestes a atacá-los. Mais uma vez a câmera guarda um olhar de descoberta, em movimento quase subjetivo em que apresenta os aviões no céu e as flechas que são disparadas para cima, assim como no momento em que os indígenas se embrenham na mata a procura daquilo que eles consideram o ‘cocô’ do pássaro que pode contaminá-los. O olhar é de um primeiro contato, a constituição da cena reserva em si um caráter duplo de retratação da realidade. Os próprios off da narração dos próprios habitantes, a relação desses com a lente de Mari Corrêa e Karané Ikpeng, o uso do dialeto da comunidade, o confrontamento com a coisa filmada (quando no momento em que todos se encontram reunidos para assistir ao material bruto filmado, bem como as imagens de arquivo dos irmãos Villas-Bôas e suas ações junto aos índios) fundamentam e fazem emergir um sentido de real intrínseco ao próprio filme. Mais um tipo de contato, dos índios, sujeitos do filme, tanto em sua elaboração, como conformados por ele.

 

Em Pirinop trafegamos rumo ao resgate do tempo e do espaço. Ao final, o reencontro com o que ficou para trás, a câmera capta os semblantes de quem vê o todo modificado em busca do antigo, do conhecido. A narração dos personagens verdadeiros é uma espécie de recriação do próprio espaço, que se encontra, no entanto, fora de seu tempo. O retorno é um novo contato, como se fosse esse um primeiro, o olhar não capta o que era esperado, a visão é a do presente, diferente do que ficou no pretérito. O maior mérito do filme é realmente o de estabelecer esse jogo de olhares, de contatos e aproximações, como, no último plano, em que ao espectador é garantida a possibilidade de estar também na lancha que percorre as águas do rio, o olhar da câmera é também o nosso em relação ao novo.

 

Filmes citados:

Pirinop, meu primeiro contato (idem, 2007/Mari Corrêa e Karané Ikpeng)

Serras da desordem (idem, 2004/Andrea Tonacci)

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