Corpo de Bollywood, O Povo Quer Cinema, de Raquel Valadares

João Toledo

A atitude de pensar realidades tão distantes da nossa tem sempre algo de enigmático. De longe, observamos dados dessa outra realidade como que vistos através de um véu. Algumas questões permanecem nebulosas, inevitavelmente. O cinema indiano é um desses casos extraordinários e misteriosos.

No exercício de desvendar esses detalhes ocultos – por um prisma que não o do sociologismo acadêmico, que permanece à distância e se debruça detalhadamente sobre os dados – Raquel Valadares foi à Índia para encontrar, no rosto do povo, nos grandes cartazes coloridos e nas filas quilométricas, suas respostas para Bollywood.

Há um interessante movimento de desconstrução de parte dos superlativos e megalomania que normalmente envolvem a indústria cinematográfica indiana. O filme cria com isso um estado em que o espectador é tornado parte da viagem de Raquel – por trás do impacto primeiro, do absoluto deslumbre com o poder do cinema e com a paixão daquele povo por sua principal forma de entretenimento, vamos descobrindo aos poucos algumas das inevitáveis contradições, percebendo nuances menos festivas de uma cultura que existe por trás do véu espetaculoso de seu cinema. A cultura dos Multiplexes, o escapismo, o desnível social, são todas questões que, se por um lado não diminuem o poder de diálogo daquele cinema com seu povo, ajudam a relativizar um pouco a questão dos benefícios que essa indústria traz. E isso é feito sem que se diminua em nenhum momento a beleza daqueles homens cantando os grandes sucessos dos musicais de Bollywood (principal gênero dessa indústria).

Somos confrontados com pessoas reais, a indústria é vista aqui pelo prisma do espectador, do indiano apaixonado por esse cinema que exalta, com requinte e exagero, toda a beleza de sua cultura. Mas nesse movimento de encontrar no espectador as respostas que importam à pesquisa, Raquel parece perder de vista que muitas vezes as questões suscitadas são muito mais interessantes que qualquer explicação. Corpo de Bollywood passeia delicado por entre seus assuntos, seus personagens, mas não encontra seu final. Tenta buscar nos depoimentos algum tipo de axioma, uma frase de efeito que, depois de todo o trajeto feito, ainda coloque o cinema indiano, esse grande mito, acima daquela realidade plena de ambiguidades. E, nessa frágil construção, acaba por aterrar a realidade abordada para reafirmar o valor absoluto do símbolo que ela própria vinha desconstruindo.

Filmes citados:

Corpo de Bollywood, O Povo Quer Cinema (Idem, 2008/Raquel Valadares)

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