Juventude*, de Domingos de Oliveira

por Rafael Ciccarini

 

É impressionante como Domingos de Oliveira consegue, mais uma vez, fazer um filme ao mesmo tempo tão cheio de defeitos e irresistivelmente encantador. Uma obra que confirma o vigor de uma carreira de erros e acertos, mas que transcende o prazer que é ver um artista que, se não em paz com a vida (ainda bem), em perfeita paz com seu talento.

 

Em entrevista, Domingos atribui alguns dos problemas do filme ao fato de ter filmado com pouco dinheiro, o que pode ser verdade, mas em pequena medida: ainda que oitocentos mil reais seja, de fato, um patamar de baixo orçamento se comparado ao patamar do mesmo Domingos de Feminices e Carreiras (com orçamentos dez vezes menores) certamente não justifica certas recorrências e precariedades, como, por exemplo, a escolha de uma câmera (digital) inferior a câmeras utilizadas em curtas metragens S.O (sem orçamento).

 

E, ainda dentro do que chamei de “defeitos”, há aquele que não guarda necessária relação com orçamentos, que diz respeito à mise-en-scène, ou melhor, à anti-mise-en-scène de Domingos. Estão lá a falta de rigor de encenação, de concepção visual, de noções mais essencialmente cinematográficas, mas é esse justamente o ponto: aqui isso parece não fazer muita falta – e em alguns momentos mais inspirados, nenhuma mesmo.

 

O cinema de Domingos é o cinema não sacralizado, que não toma para si estatuto de arte suprema, que não se quer inscrito em panteões sagrados da pomposa idéia de “sétima arte”. Esse seu despudor vai ao que lhe parece ser o principal: filmar algo que por algum motivo lhe parece fundamental ser filmado. E esse “algo” é o que lhe interessa – e o que nos interessa também.

 

Juventude é um filme sobre a amizade, antes de tudo. Claro, é também sobre a morte – mas todos os filmes são sobre a morte. Três amigos de infância (vividos por Domingos de Oliveira, Aderbal Freire Filho e Paulo José) se reencontram na casa de um deles para momentos de lembranças, risos, confissões, desabafos, o que, claro, constitui o terreno oliveiriano por excelência: sexo, culpa, remorso, traição e, sobretudo, o amor.

 

Mas aqui a coisa é uma pouco mais complexa: ao mesmo tempo em que os personagens reconstroem suas memórias individuais e coletivas, desnudam-se aos amigos, escancarando as lacunas que fazem deles quem são (e essa idéia é bem forte no filme – somos, em grande parte, a soma de nossas lacunas). Há durante todo o tempo uma pergunta, que assume diversas facetas: o que é, de fato, a amizade?

 

É como se, sabendo-se não tão distantes da morte, fosse necessário colocar à prova aquela relação de tantos anos (e sonhos e amores e utopias) para ver o que restou: tanto da amizade, quanto das utopias, quanto deles próprios. E, importante, não como despedida, como ato final e necessário de existências que se aproximam do fim, mas, ao contrário, como símbolo de vida, de continuidade, de juventude.

 

Porque, veremos, todos os personagens vivem um impasse, uma decisão a ser tomada. Decisões que envolverão, mais uma vez, conseqüências, remorsos, culpas e sofrimentos, numa constatação de certas inexorabilidades da vida. E aí é que Domingos, com seus talentos cênicos (sua atuação toma o filme) e dramatúrgicos, faz o filme subir consideravelmente com seu desfecho tão irônico quanto belo, tão simples quanto impressionante.

 

Pode-se dizer, com alguma razão, que em alguns momentos a precariedade técnica do filme atrapalha sua fruição dramática, quando, por exemplo, os três amigos contemplam o nascer do sol alardeando sua beleza (em momento decisivo do filme) enquanto vemos, na tela, um plano geral mal definido, sem textura e profundidade. Mas será impossível supor que esse contraste tenha sido quase pretendido? Que o que se quer ali é menos o espectador perdido em meio à catarse e mais esse estado intermediário de aproximação-distanciamento dessa relação de entrega despudorada ao seu próprio universo que é o cinema de Domingos de Oliveira?

 

Enfim, entre espetáculos de tecnicismo vazio, de vaidades morfoseadas em quilômetros de película e de alardeado pretenso fim da dramaturgia no cinema, Juventude emerge cheio de defeitos, cheio de contradições, mas pleno em vida, inteligência e arte. Queremos mais, sempre.

 

*Texto escrito para o Festival do Rio 2008

 

Filmes Citados:

Feminices (idem, 2004/Domingos de Oliveira)

Carreiras (idem, 2005/Domingos de Oliveira)

Juventude (idem, 2008/Domingos de Oliveira)

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