
Outubro*, de Murilo Hauser
por Ursula Rösele
À apresentação do curta, o diretor Murilo Hauser proferiu algumas palavras que denotam um tipo de tristeza que certamente contribuiu para conferir ao filme esta aura de conflito de uma pessoa com o lugar que ocupa no seu mundo interior. Em suas palavras, Outubro não é um filme sobre o suicídio, afirmação que assusta um pouco ao longo da projeção, dada a contundência das imagens que o diretor conseguiu captar e dos sentimentos que transpôs para a tela.
Como em Sistema Interno, temos uma única protagonista que – em um momento de extrema contundência e proximidade com o tipo de cinema feito por Michael Haneke principalmente em Cachê – entra no quadro, encara a câmera e dá um tiro na boca, em cena que desencadeia um pequeno plano-seqüência não somente bem feito do ponto de vista estético, como extremamente sufocante de se presenciar.
Após seu suicídio, a personagem volta a observar a câmera e diz algo como “é difícil ser jovem”. Daí o filme segue para um tipo de flashback tanto daquele personagem, quanto de um discreto esclarecimento de seus conflitos para o espectador. O filme perde um pouco de sua força inicial nas seqüências seguintes, ao tentar poetizar um tipo de vazio daquela jovem em algumas cenas que a colocam em uma posição juvenil sem a intensidade de seu olhar inicial.
O filme, no entanto, retorna dessa pequena “queda” de intensidade narrativa para o banho que antecedeu aquele tiro. Ao escolher manter a câmera em seu tripé por alguns instantes e não mais acompanhar a personagem, Hauser novamente encontrou um lugar de intensa exploração narrativa que pareceu retirar qualquer instante de doçura que pudesse haver ali.
*Texto escrito para a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Outubro (idem, 2007/Murilo Hauser)
Caché (idem, 2005/Michael Haneke)