
por Marcelo Miranda
Feliz Natal marca estréia do ator como diretor e narra drama familiar ambientado em festas de fim de ano
A noite da sexta-feira, dia 11 de julho, foi uma ocasião de verdadeira gênese de um artista. Conhecido da televisão e do cinema como ator e apresentador, Selton Mello exibiu no I Festival Paulínia de Cinema seu primeiro trabalho como diretor de longa-metragem. Feliz Natal representou para ele uma nova fase, um momento realmente próximo a outra vida. “Tentem esquecer o que apresentei nesses anos todos como ator. Estou nascendo hoje”, proclamou Selton, emocionado e de voz embargada na primeira apresentação pública do filme, no Theatro Municipal de Paulínia.
A platéia de mais de 1.300 pessoas era composta de amigos, fãs e convidados de Selton Mello, todos curiosos para conhecer sua incursão numa criação própria. Na hora de subir ao palco, ele levou um séquito de 30 pessoas da equipe para estarem ao seu lado. Apresentou um a um e fez láurea especial a Darlene Glória. “Esta vou deixar para o final”, brincou. Ao voltar a ela, deslizou em elogios. “É a minha Gena Rowlands, a minha Bette Davis, a minha musa. Ela está de volta ao lugar de onde nunca devia ter saído: do centro de uma tela de cinema.”
Quando chama a atriz de “minha Gena Rowlands”, Selton Mello está assumindo a maior inspiração que exala de Feliz Natal: o cinema de pele, de rostos e de expressões, do norte-americano John Cassavetes (1929-1989). Autor no sentido mais pleno, realizou filmes fundamentais, como Faces (1968), Uma Mulher sob Influência (1974) e Noite de Estréia (1977), todos protagonizados por Rowlands, esposa e musa inspiradora. Foi com esses termos, inclusive, que Selton se referiu a Darlene. A atriz marcou época em produções de impacto como São Paulo SA (1965), de Luiz Sérgio Person, e principalmente Toda Nudez Será Castigada (1974), de Arnaldo Jabor, em que fez a eterna prostituta Geni. Darlene estava afastada das telas desde 1974, quando apareceu em A Viúva Virgem. Foi convidada para fazer pequenos papéis em Até que a Vida nos Separe (1999) e Anjos do Sol (2006), mas agora retorna em voltagem máxima e altos níveis de depressão nas cenas de Feliz Natal - que estréia apenas em 21 de novembro.
Toda a concepção de Feliz Natal parece trazer à tona o cinema de Cassavetes. Da trama sobre relações familiares destroçadas, da câmera solta e próxima dos atores (quase filmando os poros de suas peles), das interpretações viscerais, do mergulho em angústias íntimas e dolorosas.
“As pessoas esperam um retrato do que eu fiz como ator, mas, na verdade, não me conhecem. Conhecem apenas meus personagens. Este filme, sim, sou eu, é a minha alma”, afirmou Selton, em entrevista no dia seguinte à exibição. Ele já tinha frisado, no palco do teatro de Paulínia, que o público deixasse de lado o que se conhecia de sua carreira na frente das câmeras. “Poucas vezes como ator, em todos estes anos, eu pude mostrar quem sou. Quis fazer um filme simples, brutal e imperfeito, como a vida.”
Melancolia. De fato, o que se viu na tela foi um pequeno grande filme sobre Caio (Leonardo Medeiros), homem traumatizado por um acontecimento do passado que visita a família na noite de Natal e se depara com a aparente loucura da mãe (Darlene Glória), o desprezo do pai (Lúcio Mauro) e a solidariedade tímida do irmão (Paulo Guarnieri).
A idéia de Feliz Natal surgiu para Selton de maneira tão pessoal como o próprio filme se apresenta. Nascido num dia 30 de dezembro, os aniversários do ator e diretor sempre se pautaram pelas festas de final de ano. “Acho o final de ano sempre de uma melancolia sem precedentes. O Natal, por ser uma data obrigatória, te faz encontrar pessoas que não quer”, conta ele. “Numa dessas ocasiões me ocorreu fazer um filme em que o Natal desse o tom.”
Selton conseguiu parceria com a produtora Vânia Catani, da Bananeira Filmes, e orçamento de R$ 2,4 milhões. Seguiu firme com o roteiro, escrito a quatro mãos com Marcelo Vindicato, e esteve em todas as fases do processo - também participou da montagem, feita por Marília Moraes. A única exceção foi atuação. Não há sombra de Selton no elenco de Feliz Natal. “Eu não queria vincular a minha imagem ao filme”, afirma.
Apesar de Feliz Natal representar a primeira incursão de Selton Mello como diretor de longa, o ator já se aventurou atrás das câmeras em outras ocasiões. Ele é responsável pela produção e direção do programa de entrevistas Tarja Preta, exibido no Canal Brasil; fez o curta-metragem Quando o Tempo Cair, em 2005 (protagonizado por Jorge Loredo, ator resgatado de esquetes de comédias na TV) e dirigiu clipes da banda Ira! e do vocalista Nasi.
Filme Citado:
Feliz Natal (idem, 2008/Selton Mello)
*Texto escrito no I Festival Paulínia de Cinema - 2008.
(matéria originalmente publicada em 15.07.2008 no jornal O TEMPO)