Waldick, sempre no meu coração*, de Patrícia Pillar

por Ursula Rösele

 

Longa de estréia de Patrícia Pillar sobre o cantor Waldick Soriano. Um dos “polvos” pergunta: “mas é a Patrícia Pillar, Patrícia Pillar?”. Sim, é ela. Ontem nosso editor fez uma interessante comparação de expectativas sobre filmes. Ano passado, aqui na CineOP, no mesmo Cine Praça,  Person, da ex-VJ da MTV, Marina Person.

 

Ambos os filmes resultaram em agradáveis experiências. Waldick inicia com um interessante perfil do cantor com o olhar perdido escondido nos clássicos óculos escuros observando a estrada com um carro em movimento e cortes intercalando planos-detalhes de suas mãos, do terço pendurado no retrovisor, etc. Este início aponta uma forte melancolia, dando uma idéia de tristeza para com a vida que se esvai em alguns momentos posteriores em que o cantor protagoniza hilários momentos de ironia e sarcasmo, que diminuem momentaneamente a dimensão daquele olhar inicial. Qualificado por um amigo como beberrão e mulherengo, Waldick parece ir perdendo a máscara aos poucos, à medida que a câmera acompanha sua rotina e colhe depoimentos das pessoas a seu redor.

 

O filme não tem um equilíbrio de linguagem como se prenunciava nos primeiros planos, saindo de enquadramentos mais poéticos, bem construídos, para uma certa rudeza, uma fotografia aparentemente menos planejada. Essa “dureza” contribui de certa forma para a condução que aparenta ter “sido seguida” e não necessariamente objetivada. Waldick aos poucos abandona sua persona a la Durango Kid (personagem que diz ter inspirado seu visual) e vai se deixando transparecer nesses momentos de câmera na mão nos quais aquela tristeza do primeiro plano do filme parece dar lugar.

Além dos divertidos momentos em que Waldick pontua acerca do denominado “brega”, dos amores fortuitos e da vida, a despretensão de seus depoimentos cedem lugar para uma vida amargurada e uma personalidade que – contrariando o romantismo piegas de suas canções – esconde muita frieza com o mundo e as pessoas.

 

Patrícia Pillar conseguiu captar momentos extremamente contundentes, indo de um estranho diálogo entre Waldick e Walmick (seu filho) - que não deixa tão explícito onde estão os limites da encenação e da realidade -  e dois instantes que parecem romper de vez com a máscara de Waldick. Ambos ocorrem com uma das mulheres  do cantor, que passou 17 anos com ele e – enquanto se maquia no banheiro – confidencia a dor te ter assistido a uma entrevista em que o cantor de refere a ela como “quebra-galho”.

 

Ali o cinema parece ter alcançado um belo instante em que a inexperiência com a linguagem fílmica deixa de ser um ponto negativo, uma vez que a angústia humana exposta em palavras extrapolou os limites da mis-en-scène. Tentando amainar as lágrimas com a água, a mulher deixa vir à tona toda a mágoa por aquele homem que, apesar das divagações com o amor, foi capaz de um ato covarde impressionante.

 

O momento que se aproxima do desfecho permite um encerramento que parece explicar a melancolia de seu início. Vemos em um plano aberto Waldick – sem seu “figurino” – sentado em uma cadeira enquanto ouve de cabeça baixa a mulher cantar uma de suas canções e ser ignorada quando menciona a frieza de seu companheiro. Já informados de sua presença no ambiente, Pillar focaliza a mulher sentada em um canto da mesma sala olhando para um Waldick já fora de quadro que a ouve chorar e lamentar seu ‘amor-mágoa’ a vida que vai se esvaindo ali.

 

Um final duro, desesperançoso, que deixa uma sensação sufocada de imersão em uma espécie de backstage com muita tristeza para se ver.

 

*Texto escrito para a 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

 

Filmes Citados:

Person (idem, 2003/Marina Person)

Waldick, sempre no meu coração (idem, 2008/Patrícia Pillar)

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