
Sistema Interno, de Carolina Durão*
por Ursula Rösele
A terceira série de curtas da Mostra trouxe um compêndio de filmes centrados em um lugar de descontrole do homem, de situações em que seu lugar no mundo parece em constante crise, seja através de processos internos, seja através da sua relação conflituosa com o exterior.
No caso de Sistema Interno, o foco está na questão constantemente discutida no mundo contemporâneo, relativa à falta de privacidade do homem e da exploração do lado vouyeur do espectador. Acompanhamos um dia da rotina de uma única mulher e este registro se divide em momentos em que ela é filmada por câmeras de sistemas internos de elevadores, da garagem dos prédios que ela freqüenta, web cam de um colega de trabalho e – o ponto de choque dessa relação na narrativa – uma câmera que interfere nesses sistemas de outra forma.
No filme, essa relação de observar/ser observado atinge um lugar da paranóia, à medida que alterna imagens desses sistemas (geralmente de má resolução) com imagens claramente registradas por uma câmera conduzida por quem dirige o filme. Nessa exploração do acompanhar quase doentio dessa mulher, a relação câmera- espectador-personagem também entra em crise, uma vez que a protagonista é observada pelos operadores daqueles sistemas, por nós espectadores e por uma câmera que não se sabe inserida na narrativa ou narrador da mesma.
Este conflito chega ao ápice quando ela se percebe observada por esses mecanismos e o filme aponta um tipo de catarse narrativa quando ela olha diretamente para a câmera num instante inquisidor de uma posição do homem contemporâneo que fatalmente nos empurra para dentro deste lugar.
Corpo Presente: Beatriz, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori*
por Leonardo Amaral
A expressão do corpo – seja em sua ausência sentida ou como objeto inerte – como elemento dramático e uma câmera que parece, em quase todos os momentos, adentrar e tornar-se cúmplice daquilo que capta são recorrências notadas na Série 5 de curtas-metragens exibidos em Tiradentes e denominada como “De carne e osso”, um relação mais que direta e representativa dentro de cada um desses filmes.
Em Corpo presente: Beatriz, Marcelo Toledo e Paolo Gregori lidam com o fato e sua ordem representativa: sabemos, desde o primeiro plano, que Beatriz fora morta, as imagens (fotos) existem em registro e, após apresentadas, passamos do rígido e inerte para o movimento do corpo e sua relação com o espaço. Caminhamos, junto dele, por esse espaço, por meio de câmera em espécie de en passant. Estamos de passagem, o corpo é presente, mas a ausência já é pré-meditada.
O filme de Toledo e Gregori trabalha por meio de uma câmera que passa dos planos gerais da cidade para as ações da personagem, fazendo a relação espaço/corpo/tempo. A passagem temporal é de um dia inteiro do cotidiano (e último dia) de Beatriz. Cada uma de suas ações ganha uma expectativa final, ela caminha para o fim e somos guiados, através da montagem e das imagens da cidade, para o destino. O amanhecer é fúnebre, de trânsito entre o presente para o ausente, em uma cidade que não pára. Corpo presente é, acima de tudo, um filme sobre a expectativa e finitude.
*Textos escritos para a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filme Citado:
Sistema Interno (idem, 2007/Carolina Durão)
Corpo Presente: Beatriz (idem, 2007/Marcelo Toledo e Paolo Gregori