
por Ursula Rösele
Arriscando uma ponderação no território da obviedade absoluta, digo que Meu Mundo em Perigo esconde um plural, habita a iminência de um perigo muito mais interno que fruto ou conseqüência de um espaço que sufoca. O mundo ali são vários, de homens e mulheres espalhados-solitários-presos numa multiplicidade de sentimentos e avassalados pela quase ausência da verbalização com clareza.
Não diria ser um filme sobre a incomunicabilidade, mas sobre a impossibilidade para tal, uma vez que a valorização do silêncio, o seu querer-silêncio abriga estruturas muito mais complexas que a simples desistência do dizer. É um lugar onde a palavra grita e o silêncio ensurdece. A possibilidade encontra-se na clausura quase metafórica que esperança um não ser ouvido que na realidade suplica em sê-lo. Daí os lugares fechados, as quatro paredes, as portas fechadas, o hotel semi-abandonado, o corredor vazio, a cabeça no travesseiro, a porta fechada, armário fechado, permissão de libertar-se paradoxalmente em seu próprio “cárcere”.
Nesse jogo complexo de retratar o vazio de ser, a trilha de Belmonte não só grita como berra, preenche as tais lacunas, possibilita a manutenção da fuga de suas personagens, uma vez que quando toca, abafa todos os outros sons. Num mundo sem Deus ou deuses, gritam os orixás, cuja religião está ligada à família, aos vínculos que ao longo da vida proporcionam controle sobre as forças da natureza. A libertação, portanto, aprisionada está no passado (ou idéia dele), no super 8, na imensidão misteriosa do mar.
Curiosamente deseja-se tornar estático o tempo “saudoso” através das fotografias. Elas então, representariam (já que paradas, já que num silêncio que as impede de proferir a verdade) o tal passado aparentemente sem retorno. A idéia do que foi, impedindo o presente. Para isso, o uso interessantíssimo do super 8, que - em técnica quase abandonada no cinema atual - remete sempre à lembrança, mas em Meu Mundo em Perigo sugestiona uma impressão que na realidade falseia um período que provavelmente é fantasioso. Uma vez que o que houve de vida pertence ao pretérito, o que há de pulsão de morte torna-se a constante, uma determinante quase absoluta, que pressupõe a não necessidade de futuro.
O espaço ali, a cidade, não é a responsável pela ameaça iminente que se tem visto com tanta freqüência no cinema contemporâneo (de Beto Brant, por exemplo). Há claro, o tão discutido caos urbano, mas ali a cidade parece servir muito mais para abrigar aqueles responsáveis pelo perigo, que propriamente representá-lo. O caos, portanto, seria do indivíduo no urbano e não do indivíduo urbano. As ruas, os prédios, as construções metaforizam o labirinto no qual os personagens, já perdidos em si mesmos, perder-se-ão no mundo que lhes é hostil.
A estrutura (ou “des”) familiar funciona como chave das relações. Se o ponto crucial está na infância e na família, eis um filme que transita nesse universo de maneira a quase nos inserir ali, em seus planos que se aproximam tanto e talvez na tentativa de ouvir o que pode ser balbuciado por aquelas pessoas. Temos, portanto, tríades extremamente complexas: pai-entorpecido/filho-em-querer-entorpecer-se/nora-objeto, mãe morta-viva/pai morto-presente/filha-num-querer-autismo e pai homem-excessivamente-humano/mãe insanidade-controlada/filho em-vias-de.
Os homens parecem absolutamente perdidos e covardes em suas imensidões próprias, enquanto as mulheres encontram-se todas a caminho de uma invisibilidade aparentemente irreversível. Há uma quase disputa pela loucura, uma sensação do querer-se insano que ultrapassa qualquer idéia de redenção. Resta a culpa. E como solução, a morte. A partir daí, há, aos poucos, alguns desenlaces trágicos que corroboram para uma possibilidade de sair desses ciclos.
Em Meu Mundo em Perigo temos as tais tríades já citadas, compostas inclusive por pessoas que não aparecem e são tão presentes quanto os personagens inseridos no quadro, rememorando o último filme de Bergman (Saraband) em que uma das personagens, já falecida, é tão ou mais viva que todos aqueles que a rodeiam e, curiosamente, sua presença se dá através de uma fotografia. Os protagonistas Elias, Ísis e Fito são os mortos vivos, aprisionados na presença sufocante de uma mulher metaforicamente morta (ex-esposa de Elias) e dois pais mortos. Torturados então pela culpa de não conseguirem admitir que suas ausências trouxeram (e/ou trariam, no caso do pai de Fito) alívio, os três encaminham-se para uma destruição quase inevitável.
Nessa medida Belmonte construiu uma narrativa impressionante, com pequenos respiros de moldes atuais como Amores Brutos, 21 Gramas, Short Cuts, Magnólia, Babel e o filme exibido na noite de ontem, Cinco Frações de uma Quase História. Esses personagens encontram-se através das conseqüências de um acidente de carro que inicia a possibilidade de ruptura de um ciclo. Belmonte, no entanto, realiza uma obra que não só quebra determinados clichês desse estilo como rege um belíssimo desfecho para finalmente unir/separar esses personagens e prenunciar – fatalmente – uma nova idéia de recomeço de ciclos.
Estamos então, diante da trágica dança que “finaliza” a obra. Ela se inicia na casa de Ísis e de uma Helena Ignez fascinante e moribunda que, com seu comportamento, praticamente absolve a loucura da filha. Remete novamente a Saraband, no duro momento em que a filha toca com o pai a última sarabanda e faz sua escolha, ainda que ela represente a não-escolha daquele homem e de uma possível culpa que a acompanharia pelo resto de sua vida.
Chega o momento de Elias buscar sua “redenção”. Belmonte consegue enlaçar os quatro personagens (ex-esposa de Elias, o próprio, Ísis e Fito) numa construção que – independente de seus cortes – pode perfeitamente ser montada na cabeça do espectador como um plano seqüência. A grade que separa a ex-mulher de Elias parece simbolizar uma barreira já intransponível. Do outro lado da rua, munida da máquina que eternizaria aquele momento, está uma Ísis muda de ações. Ao fundo, sem foco, Fito. No retorno da câmera, os dois já se encontram lado a lado, observando um quadro que aguarda por enquadrá-los. A entrada de Fito no plano é de uma crueza que – artisticamente ao menos – encontra uma beleza impressionante.
Temos então o som, que novamente fala por seus personagens. O barulho do tiro ecoa por toda a sala de projeção e a câmera decide finalmente abandonar o que restou daquele trio de agora dois e um finalmente morto. Para encerrar este difícil balé da morte, um novo momento em película com ares funestos daquela super 8. Mãe e filho em meio a uma praça, vivendo um momento quase edipiano de um triste prenúncio de um novo ciclo. O mar, agora fantasmagórico, aparece escondido em meio aos créditos finais.
*Texto escrito para a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Meu Mundo em Perigo (idem, 2007/José Eduardo Belmonte)
Saraband (idem, 2003/Ingmar Bergman)
Amores Brutos (Amores Perros, 2000/Alejandro González Iñarritu)
21 Gramas (21 Grams, 2003/ Alejandro González Iñarritu)
Short Cuts (idem, 1993/Robert Altman)
Magnólia (Magnolia, 1999/Paul Thomas Anderson)
Babel (idem, 2006/ Alejandro González Iñarritu)
Cinco frações de uma quase história (idem, 2007/Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)