
por Gabriel Martins
“Proibido Proibir” conta a história de três amigos: Paulo, Leon e Letícia, todos universitários envolvidos em um triângulo amoroso, que se mistura com outros problemas e preocupações de suas vidas. A resposta do público foi muito positiva, com sala cheia até o fim da sessão (que foi deslocada da praça para a tenda) e aplausos efusivos que parecem indicar boas chances de vitória para o prêmio do júri popular.
No entanto, minha impressão foi mais negativa que positiva, principalmente em função de problemas de estrutura narrativa, prejudicada pelo que parece ser uma “briga” entre direção e montagem, que não demonstram sintonia em boa parte de filme. Há, sim, momentos em que se percebe certo apuro, destacando-se duas cenas em particular: a primeira é a morte de Cinézio que, com a câmera lenta bem posicionada (artifício pouco presente no cinema brasileiro) consegue soar esteticamente bela; a segunda, a cena em que Leon é baleado, consegue criar tensão através de cortes rápidos e assim favorecer a performance dos atores. No mais, são breves momentos isolados que sustentam apenas a si mesmos, não colaborando com o filme como um todo.
Esta falta de sintonia, que parece ter se acentuado ainda mais com a construção irregular do roteiro, gera um filme que se fragmenta quando a proposta é mostrar a relação dos três personagens, deixando a impressão de não saber exatamente que história quer contar. Nos primeiros 30 minutos, o filme nos prepara para uma trama que no desenvolvimento é deixada de lado, para somente ser retomada ao final. Então, a história de amor dentro do triângulo amoroso, que parece ser a intenção principal, se ramifica em outras histórias que acabam tomando o primeiro plano e, por vezes, nos distraindo do que realmente parecia querer ser passado.
A construção do personagem de Caio Blat se torna um ponto interessante mais pelo efeito no público do que no filme em si. Ele é pintado de forma a soar como o jovem pessimista, desapegado e usuário de drogas, mas alguém com que o espectador cria uma relação de empatia, pois vimos que, mesmo possuindo esse esboço de mau-caráter, se mostra solidário ao ter preocupação (ainda que superficial) com o garoto pobre e a senhora doente. Enquanto Leon é a princípio o mais certinho, Paulo é o despojado, o que está à vontade em cena, acentuando esse gosto do público pelo protagonista de comportamento “errado”.
Foi apontado no debate que há uma certa semelhança desse filme com “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado. Há, sim, um compartilhamento de signos (amigo negro/amigo branco/garota e final em aberto), mas que param por aí. O que falta em “Proibido Proibir” sobra em “Cidade Baixa”: a sutileza da linguagem corporal. Paulo, Leon e Letícia falam muito e sentem pouco. Há aí o claro e recorrente problema de atuação em muitos filmes brasileiros de explicitar sentimentos com falas que soam por demais artificiais na boca dos atores (“É difícil esquecer os mortos!”). Enquanto momentos como os de Paulo e Rosinha (a paciente terminal) criam uma cumplicidade entre os personagens pela boa química entre os atores, outros como o da discussão política/arte/etc são prejudicados por nos permitirem ver os atores atuando e não os personagens sendo eles mesmos.
A direção consegue demonstrar, por vezes, boa percepção estética em seus movimentos de câmera que parecem desejar e desenhar Maria Flor da cabeça aos pés. Infelizmente, em muitas vezes, tais movimentos soam desnecessários e simples exercício de virtuose do diretor, passando a impressão de uma decupagem com pouca intenção dramática e muita vontade de montar apenas quadros bonitos.
Jorge Durán disse no debate que cada filme tem uma forma de ser dirigido. É uma afirmação que, por mais que tenha seu grau de coerência com o fazer cinema, não se aplica nesta película que, junto a uma leva de filmes nacionais (“Filhas do Vento”, “Sonhos e desejos”), é do tipo que tenta ser, mas nunca é; e por mais que mostre algum senso estético com a câmera e boa técnica de arte e fotografia, não consegue ultrapassar a superfície ao tratar de temas que seriam potencialmente interessantes.
*Texto escrito para a 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes citados:
Proibido Proibir (idem,2006/Jorge Durán)
Cidade Baixa (idem,2005/Sérgio Machado)