
por João Toledo
É triste assistir à decadência de cineastas, especialmente quando se trata de diretores tão significativos na formação de qualquer cinéfilo. Intriga-me pensar, no caso de Wim Wenders, como um cinema tão pretensamente amodernado pode ser tão envelhecido ao mesmo tempo.
O novo filme de Wenders ambiciona tratar – e conseqüentemente se enquadrar – de uma temática essencialmente contemporânea: o cerne da discussão é a manipulação digital da imagem. Ele busca, portanto, delinear seu discurso a partir desses modernos processos de adulteração imagética. Porém, se no campo ideológico isso pode soar interessante, na prática, o assunto é abordado com a pieguice do mais irrelevante cinema industrial. A voz em off, assim como o relacionamento do casal protagonista, beiram o constrangedor com sua sucessão de clichês e frases de efeito – tudo ali parece ter um destino maior do que o de uma simples fala e é carregado de pretensões simbólicas grandiloqüentes.
Wenders procura carregar, ao longo do filme, seu legado de tratar da manipulação e falseamento estetizante da imagem extraída do real. Analogicamente ao processo de purificação visual do fotógrafo, o próprio filme incorpora esse movimento de desconstrução do esteticismo ao qual tanto personagem quanto filme estavam completamente entregues no princípio.
Acompanhamos o dia-a-dia de um famoso fotógrafo. Logo no começo, ele pede a seus assistentes que manipulem determinadas fotografias, trocando as nuvens do céu e fazendo reflexos nos vidros. Mais à frente, ele faz uma sessão fotográfica com uma modelo e usa todo tipo de elemento extravagante – a própria modelo, em seguida, chama a atenção para os excessos e pede algo mais “humano”, mais íntimo. Aos poucos, chega-se a um desmanche gradual do excesso fake. À medida que o fotógrafo se desliga desses valores, o filme também se despe da visualidade rebuscada. A proposta é interessante, mas é tudo muito reiterativo de si; há excessivas repetições, os signos são muito óbvios. Sente-se muitas vezes que, mais do que querer discursar, Wenders quer impor uma mensagem a respeito da imagem. Mas essa tal mensagem não é abordada através da imagem. Estamos em um terreno de poucas sutilezas. Pretensamente, o que se vende aqui é um discurso em favor da simplicidade, de valores essenciais, tanto estéticos quanto humanos – mas o que vemos é uma série de artifícios narrativos arquitetando esse discurso, insistindo em valores que o próprio filme parece ignorar.
Vemos o protagonista se despir das camadas de polimento visual e retornar a um estado de contemplação mais essencial. Ele passa a enxergar o que está diante dele, simplesmente. A câmera, a partir daí, torna-se mais liberta, vaga pela noite, buscar os rostos dos homens, ruídos noturnos, ruelas sujas e mal iluminadas e belas ainda assim. Wenders é competente em extrair beleza da simplicidade. Nada de errado nisso. O problema é que essa aproximação do real – que se dá a partir de uma desconstrução que, ainda que trivial, poderia ser rica –, quando despe o filme de sua extravagância, não o desnuda de seu infantilizado discurso metafísico/sobrenatural, tampouco o desnuda da estrutura narrativa excessivamente projetada, maquinada. Ou seja, o filme empreende uma busca por se livrar da manipulação, mas controla seu discurso com mão-de-ferro.
É justo nesse momento de desmascaramento que o discurso sobre o “amor à vida” fica mais intenso, e chega ao seu ápice quando culmina na cena do encontro entre o fotógrafo e a figura da morte, onde todo o filme é resumido tematicamente e explorado num diálogo juvenil sobre o milagre da vida e a importância da morte. Tudo extremamente reiterativo daquilo que já víamos ao longo do filme de maneira bem transparente... nada ambígua... clicheresca... cansativa.
Filmes citados:
Palermo Shooting (Palermo Shooting, 2008/Wim Wenders)