
por João Toledo
O novo filme de Woody Allen é deliciosamente leve. Um filme especialmente desamargurado, pleno de escolhas de uma inconseqüência romântica, apaixonada. É claro, como não poderia deixar de ser, há obsessões diversas, neuroses e histerias que emergem das disfunções amorosas. Mas aquelas personagens de férias, mesmo duelando em suas vidas íntimas, são mais cheias de paixão que de mágoas. Há no filme uma liberdade amorosa muito honesta, feita com muito carinho. Coisas que em outros filme de Allen normalmente causavam uma certa repulsa, aqui conseguem ser feitas com tanta leveza que criam simpatia grande pelos personagens, por mais erráticos que sejam, por mais imaturas as decisões tomadas.
Woody Allen mostra cada vez mais controle da encenação, da criação de nuances muito delicadas na trajetória dos personagens. O filme é um constante jogo de sedução que, ao contrário de filmes anteriores de Allen, também seduz o espectador, o provoca diante da eminência de erupções amorosas. Allen se retira como ator e se impõe cada vez mais como diretor. Há, no filme, um estado de sensualidade que só havia mostrado semelhante força em Match Point – Ponto Final, com a sedutora Scarlett Johansson. A diferença é que, o que lá era um elemento secundário dentro de um filme que tem como chave o suspense, aqui é algo central, que permeia todo o desenrolar das seqüências; está na trilha sonora, está na paleta de cores, no vinho, nas três mulheres, na idéia romântica de um amor de verão, na traição, na criação artística, em tudo.
A narração, em meio a esse clima romanesco, soa desnecessária a maior parte do tempo. No entanto, enquanto a voz segue a narrar os enlaces e desenlaces do enredo, a sensação é de estarmos presenciando a ilustração de um conto. E, nesse sentido, o que pode ser tomado como desleixo, preguiça de desenvolver uma situação que dispense o narrador, parece fazer mais sentido enquanto mecanismo que dispensa as ações intermediárias e possibilita maior atenção cênica aos momentos significativos da trama; o narrador faz apenas a ponte entre esses instantes, ocasiões que interessam ao diretor narrar com a câmera.
Woody filma de modo cada vez menos teatralizado, há mais cortes, mais insinuação da câmera, uma condução minuciosa da sucessão de planos, criando atmosferas e fazendo uso incomum de ferramentas como a fusão, que em determinado momento, por exemplo, sobrepõe os rostos dos personagens no jogo de campo e contra-campo. Ele tem explorado mais as composições dos enquadramentos, as cores, até mesmo o ritmo e a textura parecem ter se resultado de um carinho crescente pela imagem. Isso se reflete até mesmo na temática, que tem como protagonistas dois pintores e uma aspirante a fotógrafa.
Aos setenta e tantos anos, Woody Allen se renova surpreendentemente e se mostra um fértil e incansável criador. Mesmo tropeçando aqui e ali em filmes menos relevantes, ou em situações muito arquitetadas para que se chegue a determinados destinos, o grande diretor americano segue a construir uma carreira que é interessante tanto nas obras máximas quanto nas mínimas, principalmente havendo um apreço tão grande pelo desastre, pelo descontrole do homem diante da realidade. E assim, Allen vai sendo guiado pela vida e aterrissa na Espanha, atribuído de um novo estado de e apreensão e acepção da imagem. Seu novo filme, que é sem dúvida um “filme de Woody Allen”, é ao mesmo tempo uma redescoberta apaixonante.
Filmes citados:
Vicky Cristina Barcelona (Idem, 2008/Woody Allen)
Match Point – Ponto Final (Match Point, 200 /Woody Allen)