
João Toledo
O filme novo de Olivier Assayas passeia lindamente entre o romantismo de louvar a arte e a pintura como algo sublime, transformador e íntimo, e o pragmatismo de pensá-lo como objeto de valor monetário, como peça de museu de acesso público e que depende de cuidados especiais. Esse dualismo a tentar se equilibrar, no entanto, não é algo que se restringe ao universo da pintura. Apenas serve de espaço para a projeção dos movimentos interiores de cada um, deslocados entre a manutenção do passado e o caminhar para o futuro. É um belo retrato de família, de irmãos que se transformam e se afastam, se desligam daquilo que os unia e seguem trajetos opostos, mas que também se amam.
Assayas se move delicadamente entre os personagens, com uma câmera que também opera se equilibrando entre a fluidez que ampara as cenas mais movimentadas e a precisão dos momentos de sutileza, quando a câmera desvenda detalhes, descobre expressões tristes por trás de janelas fechadas.
Cria-se um agudo estado de melancolia, principalmente por tudo aquilo que se esvai aos poucos, que deixa de nos estar ao alcance. Tanto a morte da mãe, que leva consigo tantas lembranças e histórias não contadas, quanto a própria dissolução dos bens da família, que serviam de cenário para o âmbito da lembrança, acirram nos personagens esse estado de nostalgia, de rememoração solitária de algo que agora só pertence a cada um; não há mais nenhum elemento físico que os une.
Em meio ao clima de saudosa tristeza, a jovem garota promove uma festa na já vendida casa de campo. Ela atualiza aquele espaço de plena nostalgia e o potencializa como espaço para novas lembranças. Há uma passagem de gerações, uma recriação dos ambientes que servem agora a outros propósitos; a música alta, o skate, a dança, os jovens renovam os espaços com o frescor de suas pulsões. Ainda assim, essa passagem não soa como rompimento; enquanto nos despedimos do passado e das gerações mais velhas, nos aproximamos afetuosamente da jovem, herdeira de um grande carinho pela memória.
Filmes citados:
Horas de Verão (L’Heure D’Été, 2008/Olivier Assayas)