Rinha, de Marcelo Galvão*

por Gabriel Martins

 

Rinha já tem início explicitando sua ambigüidade: “Baseado em fatos reais”, diz o letreiro. Rinhas como a representada no filme - uma festa de elite hedonista regada a drogas servidas em bandeja de prata e lutadores chamados de “cães” pelos apostadores e donos - podem até existir, mas definitivamente a estrutura do filme nega qualquer apego ao mundo “real”, sendo uma reprodução bem fiel do cinema que Guy Ritchie fez até hoje, principalmente em Snatch – Porcos e Diamantes. Todos os elementos estão lá: apostadores, lutadores, congelamento de imagens, a narração em off, o timing cômico, toda uma estrutura estilizada de modo a construir um filme de entretenimento.

 

De acordo com depoimentos de Marcelo Galvão, o filme foi feito com a intenção puramente comercial, de modo a viabilizar outro projeto seu, de concepção mais pessoal. Isso explica o fato do filme ser quase inteiramente falado em inglês (a própria equipe do filme admite esta intenção). E ciente desta proposta, e atendo-se a todo o momento nela, é preciso reconhecer que Galvão realmente conseguiu construir um filme, dentro de suas limitações, bem resolvido. Em Quarta B, seu filme anterior feito de forma tão independente quanto este, a proposta se desgastava ao longo do filme, prejudicando o aspecto central e a discussão que ali se aplicava. O absurdo e a hipocrisia eram elementos que o diretor conseguia unir de tal forma a provocar tanto o humor do espectador como um mínimo senso crítico para a situação enquadrada. Em Rinha esta mesma opção se faz visível. Ao mesmo tempo em que utiliza do absurdo de certas escolhas dos personagens, Galvão está a todo o momento brincando com jogo de interesses, as fraquezas destes mesmos personagens, seus pecados, análises críticas do ser humano feitas de forma superficial – e dentro do que o filme se propõe isto nem chega a ser necessariamente um incômodo.

 

Com tudo isso, Rinha torna-se um filme claramente limitado, restrito à sua atmosfera cool, que busca se afirmar na marginalidade e atipicidade de seus personagens. Mais do que uma opção comercial, fazer o filme em inglês parece ser a única maneira de tornar aquele universo recheado de fucks interessante o bastante para ganhar o espectador que é fã de Tarantino, de filme de ação e do próprio Guy Ritchie, referência explícita já citada anteriormente. Um filme que, no fim das contas, entretém, por mais que tenha um grafismo incômodo para os de estômago fraco e cuja busca insistente de fórmulas ‘de sucesso’, acabe fazendo amainar boa parte de sua potência.

 

Filmes citados:

Rinha (idem, 2008/ Marcelo Galvão)

Snatch – Porcos e Diamantes (Snatch, 2000/ Guy Ritchie)

*Texto escrito durante cobertura Indie 2008.

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