
João Toledo
Curioso e positivamente estranho esse novo trabalho de Jennifer Lynch – filha do cineasta David Lynch. A primeira cena que surge na tela já é a de um massacre brutal filmado em primeira pessoa, ou seja, o observado, portanto, da perspectiva do assassino, com o detalhe de que somos colocados nessa posição inquietante de observadores sem haver tido sequer uma apresentação dos personagens.
Na cena seguinte, já estamos dentro de um carro, acompanhando a viagem de uma dupla de agentes do FBI que se aproxima da delegacia da pequena cidade para investigar o estranho massacre. O filme é esteticamente opaco, sem brilho, meio vulgar. Todos os personagens também são assim, meio tolos, meio babacas, pouco interessantes. São seres bastante comuns em um lugar que também parece bastante comum, ordinário. Estamos praticamente diante de um anti-Assassinos Por Natureza. Aqui não há sinal algum de violência glorificada, manipulação ou espetacularização midiática; há, no entanto, bastante despudor com a podridão abordada, uma plenitude de entrega ao estado de ruína do ser humano, ao desgaste de qualquer tipo de virtude.
Propaga-se um estado de demência em ascensão. Tudo o mais vira resto, e se perde no vórtice de uma destruição que chega sem explicações, sem sentidos, sem sintomas sociais claros, sem qualquer moral. Mais um massacre. Resta, ao final, uma infância sem inocência e sem rumo, e uma estranha idéia de amor e de romance. Completamente distorcido, distópico, anormal. E é uma delícia ver um cinema que se permite eventualmente sair da norma.
Filmes citados:
Sob Controle (Surveillance, 2008/Jennifer Lynch)