
Queime Depois de Ler
João Toledo
Entre os cineastas profundamente interessados em dialogar com o próprio cinema e suas estruturas, talvez os irmãos Coen sejam dos (relativamente) poucos com uma visão de mundo um pouco mais refinada, uma postura crítica e política mais profunda de sua realidade. Longe de se perderem nos meandros do discurso politizado anti-qualquer coisa, o que eles fazem é justamente se deslocaram do âmbito do peso moral de uma retórica e gozarem de um estado de cinismo amoral – reflexo do mundo, claro – que faz do universo recriado uma comédia de erros, de muitos erros.
Os Coen retornam bem fortes à comédia e a um cinismo – marca desse cinema – cada vez mais pessimista. Dessa vez, eles voltam o olhar para a estrutura burocrática de uma CIA que varre problemas para debaixo do tapete em decisões imediatistas, totalmente desmistificadoras das investigações minuciosas de séries de televisão. As constantes e hilariantes referências dos Coen ao Vietnã ou, como é o caso deste, à Guerra Fria, Rússia etc, emergem sempre de forma a ressaltar a ingenuidade política daqueles personagens, ainda perdidos nos estereótipos maiores do americano.
Usando como protagonistas o cidadão americano médio, o sujeito comum, instrutor de academia, eles dão continuidade ao seu cinema – contado pela perspectiva desse sujeito, ora mais esperto, ora mais idiota. Mas, ao mesmo tempo, os diretores demonstram que parece haver cada vez menos espaço para a esperança. Se havia a gravidez em Fargo ou o elogio do banal em O Grande Lebowski, aqui não há esperança ou atenuantes nas conseqüências dos erros sucessivos dos personagens, perdidos em um mundo de artificialidades estéticas, paixões vazias, ingenuidades políticas etc. Não é que não haja carinho pelos personagens: eles são ridículos, mas não são ridicularizados a ponto de se tornarem pequenos problemas descartáveis. São sempre bastante carismáticos, cheios de defeitos, mas dotados de humanidade; no entanto, não há mais espaço para a redenção.
Formalmente, os Coen sempre se reciclam de acordo com o gênero com o qual dialogam. Sua marca está justamente na precisão da gramática. Transitam entre muitas estéticas, mas conseguem manter um estilo próprio, de câmera eloqüente, precisa, quase clínica, como se cada plano fosse fundamental dentro da estruturação das cenas. A câmera antecipa cada detalhe de ação; fica claro que tudo é pensado à exaustão e executado com rigor. Há muita lucidez no cinema dos Coen, e uma profunda noção daquilo o que estão dizendo e de onde querem chegar. E, não por acaso, sempre chegam lá.
Filmes citados:
Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008/Joel e Ethan Coen)
Fargo (Fargo, 1996/Joen e Ethan Coen)
O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998 /Joel e Ethan Coen)