Ninho Vazio, de Daniel Burman

João Toledo

Daniel Burman, nome interessante do cinema argentino atual, trabalha em seu novo filme questões que desconstroem certos estigmas do cinema contemporâneo, e o faz com impressionante leveza a precisão. Figura definitivamente essencial, não apenas dentro do que se chama de novo cinema argentino, mas dentro do panorama cinematográfico mundial, o diretor constrói, em Ninho Vazio, espaços para que a imagem se desloque de sua funcionalidade habitual, criando desnorteamentos e quebras bastante curiosas.

Ninho Vazio compreende um período da vida de escritor em crise com seu trabalho, seu casamento, sua família; essencialmente, em crise com a própria existência. Em um jantar, logo no começo do filme, ele passa a flertar com a possibilidade de se envolver com jovens atraentes. O filme, então, faz um interessante jogo de confundir nossa percepção a partir de desconstruções graduais do que víamos/ouvíamos.

Se, por um lado, é um filme completamente adepto a uma estética hiper-realista, algo que se tem visto bastante no cinema contemporâneo (Trapero, Salles, Beto Brant, Dardenne etc.), por outro lado trata-se de um filme que se desloca da função dessa estética. A câmera na mão, seguindo os gestos; os re-enquadramentos; foco nos detalhes expressivos, rostos, mãos; uma montagem que atende à fluidez e naturalidade da cena; espontaneidade e improviso; são todos elementos que conjugam essa estética, que habitualmente cria um estado de percepção naturalista da cena e dessa encenação como representação “oficial” da realidade objetiva.

O que Burman faz aqui é desligar os valores estéticos realistas de seu papel original, chamando à baila questões provocativas e levando o espectador a um constante estado de surpresa. Aquilo que já é percebido como algo tão próximo, torna-se estranhamente quimérico e irreal. Mas isso é feito pontualmente, e com uma leveza que chega a enganar nossos próprios sentidos, fazendo-nos pensar que talvez sejamos nós os que estejamos “imaginando coisas”. Enquanto o protagonista se redescobre e investe na busca por cuidar das questões que o afligem, somos nós também que investimos numa constante redescoberta dos sentidos do filme. Somos levados e enganados por sua textura, mas de um jeito dócil e bastante espirituoso.

O personagem, agora amigo de um neurocirurgião pesquisador, já não sabe mais o que imagina, o que cria, e o que de fato vive. A memória confunde os sentidos – e nesse sentido o realismo não deixa de ser realista, já que a própria realidade é mera percepção. A trajetória do personagem – tão verdadeira e encantadora nas obsessões, nos traumas, nas vontades ocultas, no cinismo, no egoísmo e no carinho – é construída a partir de uma mise-en-scène sempre criativamente interessada no poder expressivo singular de um único plano, de seu jogo com o tempo, com a luz etc. Como em qualquer grande filme, a impressão que se tem é de que cada cena só poderia ter existido do jeito que existe.

Ao final, a criação é percebida, a partir do personagem do escritor, como um ato quase terapêutico, como um processo de descoberta de coisas escondidas a partir da montagem que nós próprios fazemos da realidade – construindo-a ou desconstruindo-a, imaginando ou esquecendo. Não diferente do autor, cabe a nós desmontar e remontar nossas próprias idéias e conceitos, tanto daquilo que o cinema nos propõe quanto do que a realidade, ela própria, nos propõe.

Filmes Citados:
Ninho Vazio (El Nido Vacío, 2008/Daniel Burman)

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