Segurando as Pontas, de David Gordon Green

João Toledo

Segurando as Pontas, novo filme do núcleo criativo liderado por Judd Apatow, cristaliza algumas características do cinema que eles vêem fazendo. Mais do que um filme de comédia absurdamente engraçado, o que, por si só já, seria algo interessante, há uma constante subversão de certas expectativas que o cinema em geral cria. Há, por trás dos filmes desses amigos, uma legitimidade das relações humanas que, ao contrário da produção cinematográfica hegemônica, não é nada mecanizada e arquetípica. Talvez, por haver uma cumplicidade real daquelas pessoas vestidas de personagens, sejam tão marcantes as relações que se criam – transparece na tela o vigor dos personagens. Nesse sentido, são filmes muito dependentes dessa química entre os atores, dependentes no bom sentido, pois criam um espaço de desenvolvimento de personagens que permite a experimentação, o improviso, e inclusive preza por isso. Nos extras de praticamente todos os filmes do grupo – Virgem de 40 Anos, Superbad e Ligeiramente Grávidos – há uma série de seqüências que trazem improvisos engraçadíssimos, reforçando a importância da qualidade dos atores escolhidos e também da importância a eles dada de serem parte constantemente ativa do processo de criação.

A direção do filme, como nos outros, atende muito bem ao gênero proposto, e consegue concatenas uma mise-en-scène bastante criativa nos momentos, por exemplo, perseguições, lutas e explosões, mas sem desviar o foco do material humano. São sempre obras irrestritamente entregues ao que parece ser um projeto de implosão de gêneros cinematográficos. O que em Superbad foi feito a partir da idéia de um filme de adolescentes no colegial, em Ligeiramente Grávidos era uma comédia romântica e aqui em Segurando as Pontas é um filme de ação. Até mesmo em A Vida é Dura, filme-paródia dos recentes filmes biográficos baseados em músicos, há constantes desconstruções. Eles fazem escárnio da própria proposta, satirizam a idéia da paródia dentro da paródia.

Esses filmes, em um primeiro momento, se enquadram em determinados gêneros, mas ali dentro eles rompem com todos os valores formais a recriam as regras moldando-as ao projeto de cinema deles, tendo como elemento chave justamente aquilo que os une. Há um interessante movimento de revitalização dos gêneros, de redescoberta das possibilidades dentro do jogo cinematográfico, e há essencialmente um resgate do sujeito em meio às regras narrativas, aos projetos enrijecidos e repetitivos, e aos gêneros que passaram a privilegiar o elemento material ao elemento humano. Os filmes dessa turma são, nesse sentido, quase respostas às odes vazias de um Michael Bay e suas explosões magníficas. São filmes de amor, mas não exatamente de amor entre homens e mulheres; trata-se em primeira instância de filmes de amor entre amigos, de entrega a uma relação de carinho e afeto como algo essencial a ser desfrutado.

Portando, durante o processo do filme de ação, em meio aos excessos extremamente cômicos das seqüências enérgicas e explosivas, há um desenvolvimento muito simples da relação afetiva entre o protagonista e seu traficante. Fazendo isso, eles ironizam qualquer idéia de moral a partir da conversa que travam sobre a “culpa” da maconha, mais tarde ironizam o excesso referencial nos filmes de ação, ironizam a vulgaridade e banalidade dos massacres fílmicos, ironizam o insistente romance pelo romance ainda que não haja naturalidade ou motivo algum, mas fazem isso sem deixar de plantar com cuidado todos os elementos que cultivam e tornam especialmente emocionantes as relações erráticas, desajeitadas e estranhas de amizade.

 

Filmes Citados:

Segurando as Pontas (Pineapple Express, 2008/David Gordon Green)
Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2006/ Judd Apatow)
Superbad – É Hoje (Superbad, 2007 / Greg Mottola)
Virgem de 40 Anos (
The 40 year old virgin, 2005/ Judd Apatow)
A Vida é Dura (Walk Hard: The Dewey Cox Story, 2007/ Jake Kasdam)

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