Gomorra, de Matteo Garrone

João Toledo

A motivação original de Matteo Garrone parece ser a de compor um panorama geral da atual situação da máfia. E o estado geral das coisas é algo bem maior do que aqueles personagens que acompanhamos, que não à toa são soterrados pela grande quantidade de núcleos dramáticos que buscam dar conta de concatenar todas as atividades mafiosas e criar um amplo e completo “retrato” da realidade contemporânea.

Mas, por mais que se possa detratar o filme a partir do discurso político que precede à investigação humana ou estética, há um jogo bem mais interessante sendo proposto, do que o visto, por exemplo, em Babel, onde se cria um universo hiper-realista estereotipado para se chegar a pretensiosos discursos sociológicos sobre o homem. Não há, aqui, nenhuma pretensão narrativa em entrecruzar os cursos em desenvolvimento como forma de alinhavar uma possível moral maior. Numa escala ampla, a motivação é a denúncia, mas em pequena escala, nos micro-núcleos de cada personagem, não parece haver vontade alguma do filme de funcionar como guia moral, já que os personagens não são necessariamente julgados pelo filme, rotulados de forma maniqueísta. Eles não atendem propriamente a um objetivo que, ao final, se mostraria justificado por um argumento. São seres perdidos em meio à realidade apodrecida. E, de tudo o que o filme propõe, esses personagens são o que há de mais interessante, e diante dos quais essa macro-realidade putrefata empalidece.

Formalmente, há uma dualidade entre o extremo realismo na condução da câmera e na não espetacularização da violência, mas há também um trabalho incisivo e bastante estetizante, ainda que não artificioso, no uso da luz, das cores, da pouca profundidade de campo. Ele não falseia ou glorifica a ruína social que filma, não plastifica a imagem, permite a sujeira, mas não deixa de usar a sujeira como elemento de composição, a articula esteticamente, cria uma mise-en-scène interessada nos efeitos visuais do submundo – o problema é que não parece haver uma entrega a isso, que está sempre subjugado pela realidade antes da representação.

É um filme de forte impacto que se pretende justamente assim, como se fosse deflagrador de uma realidade ser transformada. É um manifesto, portanto. Também não deixa de ser cinema, mas uma coisa definitivamente vem antes da outra.

 

Filmes citados:

Gomorra (Idem, 2008/Matteo Garrone)
Babel (Idem, 2006/ Alejandro González Iñárritu)

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