A Mulher Vê Muitas Coisas, de Meira Asher

por Ursula Rösele

 

 

A estreante na direção Meira Asher é uma israelita que mora na Holanda e especializou-se em composição entre imagens e sons os quais costuma registrar e tocar, respectivamente. No documentário A Mulher vê muitas coisas, ela mescla esses componentes com a re-composição de fragmentos da memória de três mulheres ex-combatentes de Serra Leoa, na África Ocidental. São elas Anita Jackson (enfermeira e combatente voluntária do exército de Serra Leoa), Chris Conteh (foi seqüestrada, treinada e lutou com a RUF – Frente Unida Revolucionária) e Mahade Pako (raptada pela ULIMO – United Liberian Movement for Democracy).

 

A Libéria delimita Serra Leoa pelo sudeste. O país passou mais de 20 anos em guerra civil e contribuiu para trazer mais instabilidade para Serra Leoa. O líder da Frente Nacional Patriota da Libéria, Charles Taylor, ajudou Foday Sankoh (ex-comandante do exército de Serra Leoa) a criar a RUF.  O exército e a RUF foram os protagonistas de uma guerra civil devastadora principalmente na região onde se concentram as principais minas de diamante do país, causando a morte de milhares de pessoas, além de inúmeros refugiados que fugiram para a Libéria e Guiné. 

 

Todo este resumo para chegarmos às três personagens-protagonistas do filme, que trabalharam como crianças-soldado (como eram chamadas) durante o conflito.  Meira Asher foi à busca justamente do olhar feminino sobre toda a profusão de violência que, como o título explicita, poderia trazer questões instigantes não somente por serem mulheres submetidas a atrocidades, mas também treinadas para cometê-las contra outras pessoas

 

Este não é um documentário nos moldes tradicionais do gênero, uma vez que possui uma estética, montagem e abordagens muito pouco convencionais e que produzem efeitos tanto contundentes como elementos distanciadores da imersão do espectador.  Os já conhecidos depoimentos em que a câmera enquadra o entrevistado, geralmente em um plano médio, enquanto ele discorre sobre suas experiências, são praticamente abandonados por encenações das três garotas reproduzindo diversas situações que viveram como combatentes e até por algumas cenas reproduzidas em animação (estratégia que, há de se confessar, um tanto quanto deslocada no filme).

 

Asher aposta no poder do metafórico, do uso de analogias para simbolizarem os relatos. Anita Jackson, a primeira “entrevistada”, expõe a rotina do campo de combate em que trabalhou durante a guerra utilizando-se de ampolas de remédio e seringas como forma de encenar os tiroteios e bombardeios sofridos. As três garotas denotam a todo o momento a dor, o esgotamento e o radicalismo resultantes da mentalidade daquele que imerge em uma guerra, aprende a matar e a controlar sentimentos (estupros violentos e mutilação de corpos, por exemplo). Além disso, a condução do filme, em sua experimentação narrativa e estética, parece ter desencadeado nelas uma necessidade não somente de atuar, mas algo como “reviver” aqueles momentos a partir da liberdade do uso de seu imagético. Como se lhes fosse concedido o livre-arbítrio de interpretação, análise e reprodução dos fatos, através de um meio artístico que não as puniria, não julgaria suas “escolhas”, apenas as deixariam se expressar.

 

Apesar de às vezes o filme se perder numa espécie de delírio com a imagem que “esquece” um pouco da questão complexa abordada, traz possibilidades interessantes de composição documental, sem pretensões de exprimir verdades absolutas. Ao mesmo tempo em que divaga nos planos-detalhes dos corpos feridos daquelas mulheres, passeia pelos seus olhares, sorrisos e tenta descobrir uma doçura feminina, um resquício de amor e crença numa circunstância tão difícil de conceber.

 

*Indicação: o filme Diamante de Sangue aborda a guerra civil em Serra Leoa, as crianças-soldado e a questão complexa dos diamantes para o conflito.

 

**Site oficial do filme A Mulher vê muitas coisas, clique aqui.

 

Filmes Citados:

Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006/Edward Zwick)

A Mulher Vê Muitas Coisas (Woman see lot of things, 2006/Meira Asher)

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