Segurança Interna e Fantasmas (de Christian Petzold): prólogo e epílogo de um corpo que vaga

por Leonardo Amaral

 

(Antes de escrever qualquer linha sobre os dois filmes de Christian Petzold, da interessante Nova Escola de Berlim, é preciso dizer que a projeção de Segurança Interna foi bastante prejudicada, sendo que 1/3 do filme foi exibido sem som, ou com picos de áudio que atrapalharam muito a imersão de um filme que, a primeira vista, se mostra assaz interessante nas questões estéticas que suscita. Como ele e o outro filme de Petzold, Fantasmas, apresentam um forte diálogo no trato do corpo no espaço e tempo diégéticos e imagéticos, resolvi, mesmo diante da perda por conta do som, ainda sim relacioná-los).

 

A atriz Julia Hummer, nos dois filmes citados anteriormente, empresta seu corpo para que esse metaforicamente sofra várias fragmentações diante de dois destinos bastante cruéis. Christian Petzold inicia, em Segurança Interna, algo que vai voltar a sublinhar em Fantasmas: o ser humano não tem controle de suas ações, ele não consegue predizer seu próprio futuro e por mais que ele tente se prender a lugares, pessoas e mesmo ao passado, ele sempre será um ser que vaga, errante, sem um chão que o sustente.

 

O diretor investe em planos-sequências e steadicams que fogem, em geral, à tradicional câmera subjetiva vinculada a essa técnica. Nesses dois filmes, ela ganha um papel um pouco diferente: acompanhar os passos indeterminados de personagens que não podem e não conseguem se prender a algo e se anexar a lugar algum. Câmera essa, aliás, que mantém um respeito imenso pelo ser humano e seu processo de ascese: ela é, talvez, a única a nunca abandoná-lo, como, por exemplo, no último plano de Segurança interna: após a fuga posterior ao roubo do banco arquitetado por circunstâncias que vão se agravando durante todo o filme, além da não possibilidade de se prender a pessoas e lugares, temos o carro que se estatela em um barranco. Jeanne, a personagem vivida por Julia Hummer, levanta-se e mais uma vez precisa abandonar o passado (mesmo com todo o peso que ele lhe causa). Ela caminha, sem qualquer direção: a câmera cola-se ao seu rosto, movimento esse que transita entre a dor da perda e a necessidade de seguir: ao espectador não cabe o abandono, seguimos junto a Jeanne.

 

Em Fantasmas, a câmera é um pouco menos presente, dá possibilidades para que os personagens se desvelem no decorrer da narrativa. O filme é, na verdade, uma visão desoladora de um mundo no qual as coisas e pessoas são efemeridades, onde os sentimentos se diluem em favor de outros propósitos. Agora Julia Hummer é Nina, uma órfã cuja falta de pessoas e carinho a fazem se aproximar de desconhecidos, tentando garantir neles a falta de sentimentos que marca sua vida. Não é por menos que ela vai seguir, se aproximar e ter um caso amoroso relâmpago com a delinqüente Toni, que, após uma noite em que passam juntas, não vai exitar em deixar Nina para fugir com um homem. Completando a trama, Françoise viaja da França até a Alemanha em busca da filha seqüestrada ainda nenê. Ela chega a acreditar que Nina pode ser essa criança, mas termina por também abandoná-la. Fantasmas é, assim como já havia sido iniciado em Segurança Interna, a finalização de um retrato da não-possibilidade. O título é, inclusive, bastante apropriado e representa pessoas que percorrem um espaço sem qualquer tipo de apego: Nina também é uma figura fantasma (principalmente por estar sempre a vagar, como se estivesse penando por locais por onde passa), corpo e alma de ilusões quebradas, cujo destino se baseia sempre em um passado, no entanto, já morto, fantasmagórico.

 

De uma certa maneira, essa não-possibilidade, esse vagar sem ter a quem se prender ou a quem se fixar, funciona como um complemento daquilo que existia em Segurança Interna exatamente por esse jogo dado pela impossibilidade de se estabelecerem. Lá, no filme realizado em 2000, Petzold mostra como nada alcançará algum tipo de fechamento ou uma segurança interior (caracteristica que vem da propria dubiedade dada pelo nome do filme, que pode ser tanto as câmeras internas do banco roubado quanto os sentimentos inseguros) que é bastante longínqua.  

 

 

Jeanne conhece um garoto em uma praia de Portugal e se apaixona. Após inúmeras separações entre os dois (tendo como pano de fundo o assalto a um banco realizado pelos pais da menina, ativistas políticos que precisam estar sempre em fuga), é mais do que evidente o quanto os sentimentos se fragmentam, sendo impossível qualquer felicidade no terreno do amor. Outra vez, Petzold faz um filme sobre a desilusão de um mundo onde tudo é efêmero, em que tudo é difícil, sendo que, o que resta ao ser humano é vagar, sem qualquer companhia e destino, sem deixar de pagar por um passado pelo qual essas duas mulheres (Jeanne e Nina) não têm culpa.

 

 

Filmes citados:

Segurança Interna (Die innere Sicherheit, 2000/Christian Petzold)

Fantasmas (Gespenster, 2005/Christian Petzold)

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