Rendição Extraordinária, de Jim Threapleton

por João Toledo

Rendição Extraordinária é um filme dividido entre suas motivações cinematográficas e políticas. Parece ficar no meio do caminho entre um manifesto contra determinadas atitudes recentes da agência secreta do governo americano e algo esteticamente expressivo. Há pontos positivos dos dois lados.

Cinematograficamente há diversas qualidades, como, por exemplo, na forma de trabalhar os ritmos da montagem – que é entrecortada nos momentos onde isso atende à narrativa, mas é mais esparsa nos momentos de maior densidade dramática. Para um filme que se inicia como uma obra de suspense e ação há uma grande subversão no caminho tomado. O enredo se revela, ao longo do trajeto, significativamente arrastado devido à inexistência de uma continuidade dramática pós-trauma, de uma busca qualquer por redenção ou vingança. O que existe é a pura constatação de uma degradação humana. Se pudéssemos analisar o desenvolvimento narrativo puro, sem vínculos com o que se pretende dizer, esse seria um interessante projeto; análogo à transformação do protagonista, há um esgarçamento, uma desagregação narrativa.

Há, no entanto, simplificações que parecem encontrar justificativa nas pretensões políticas da obra. O filme é dividido em três tempos que são narrados simultaneamente. Há o antes, o durante e o depois do seqüestro, e acompanhar essa trajetórias de maneira paralela parece se justificar apenas como maneira de ressaltar as transformações do personagem de maneira mais contrastada. Fora isso, há um uso excessivamente didático da luz, da temperatura de cor, buscando diferenciar bem os três tempos paralelos para que não haja confusão entre o que foi, o que veio e o que está. No passado, bastante claridade, tons claros, luz do dia; durante o seqüestro, uma fotografia avermelhada, tons alaranjados, calor, sangue, sujeira; e, no presente, uma fotografia ostensivamente azul, claramente forçada, buscando um tom frio, morto, apagado, vazio. Isso diferencia tão claramente cada momento - e de forma tão excessivamente intensa - que diminui o trabalho expressivo dos atores e até mesmo da câmera no sentido de apagar as nuances com uma enxurrada de obviedade.

Também formalmente, há uma crueza visual que parece interessante. Uma busca por uma imagem mais palpável, pela sujeira e crueldade visualmente desprovidas de polimentos glamourosos que normalmente retiram da imagem seu estatuto de retrato do real; as motivações do projeto, no entanto, traem esse aspecto positivo ao se mostrarem interessadas essencialmente no choque realista das torturas.

Pessoalmente, penso que todo filme que usa seus personagens para chegar a uma conclusão moral – especialmente política –, que busca delinear certos e errados a partir da criação de situações que pretendem gerar empatia no espectador, desvirtua suas possíveis qualidades cinematográficas em função de incorrer em um paradoxo essencial. Tematicamente, trata-se de uma tese política objetiva e uma crítica incisiva, mas do ponto de vista estético trata-se de uma manipulação emocional a partir da criação de um vínculo subjetivo com uma figura que, por mais que represente o estado das coisas, está sendo representado por um ser humano. E essa criação de vínculo, nada objetiva como o discurso político, é feita a partir de um apelo emotivo que busca adesão à tese tecida. É menos importante aqui o fato de eu ser contra ou a favor de determinada posição política, porque a forma que se escolhe para dizer isso pressupõe escolhas que visam a um objetivo muito específico; adesão à causa. E isso é propaganda eleitoral gratuita.

O mais infeliz de tudo é reconhecer, debaixo do discursinho enviesado, talento cinematográfico desperdiçado.

Filmes citados:

Rendição Extraordinária (Extraordinary Rendition, 2007/Jim Threapleton)

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