
por Ursula Rösele
Em sua estréia na direção, o mineiro Gibi Cardoso escolheu retratar o travesti carioca conhecido como ‘Tomba Homem’. Ele mora há anos em Belo Horizonte e, aos 80, convivendo com o vírus da AIDS, “Tomba” (como gosta de ser chamado) aparenta, sobretudo em seus silêncios, ser uma pessoa que viveu circunstâncias dúbias na maior parte de sua vida. Não somente a junção feminino/masculino que o acompanha, mas a relação com a violência em contraste com o humanismo que denota em suas falas e encontros com outros travestis ao longo do filme.
O “gênero” documentário fatalmente suscita reflexões em torno do dispositivo, principalmente pela questão muitas vezes complexa de ser visto como a representação de uma dada realidade. Gibi faz escolhas curiosas ao iniciar e fechar o seu filme, que podem gerar determinadas pontuações em torno de sua intenção ou do resultado obtido com o mesmo: o silêncio praticamente absoluto da equipe e o ato de observar por mais de 6 minutos Tomba Homem em sua casa. A câmera capta seu olhar para a televisão (que transmite uma partida de futebol), fecha em um bibelô do Fluminense, um frasco de esmalte, uma boneca.
O uso do plano-detalhe neste documentário em específico causa uma quebra, principalmente por saber-se que o plano fechado em determinado objeto acaba por aludir a outro significado, a uma visão subjetiva, questão que – em tese – não ocorre com freqüência em documentários (especialmente os que se pretendem “retrato” de alguém). Nesse ponto do filme, ainda não o ouvimos falar, mas temos (através da montagem) alguns elementos que simbolizam a condição homem/mulher do personagem. A escolha de Gibi de enquadrar detalhes do quarto de Tomba, seus olhos, suas mãos, também alude à experiência imagética que o diretor divide há alguns anos com o cineasta Cao Guimarães.
Quando começa a falar, Tomba discorre sobre sua vida, sua chegada a Belo Horizonte e o impedimento de fazer a cirurgia de mudança de sexo devido à sua doença. Nesse ponto, com a bela (apesar de triste) frase “não nasci, mas quero morrer”, determinadas questões internas do personagem vêm à tona sem a necessidade da explicitação através de palavras ou do áudio nas perguntas feitas pela equipe que o filmou. A visão metafórica de seu lado masculino (futebol, o close em seu rosto) contrastando com a boneca, os esmaltes e uma foto antiga sua de biquíni, traz uma nova significação aos planos-detalhes inseridos no início do filme: a melancolia pela impossibilidade de “nascer” como mulher de fato.
Em um determinado momento no início do filme, pode-se ver uma claquete abandonada no chão do quarto. Em primeiro plano, o rosto de Tomba Homem. Seria uma maneira sutil de abdicar do controle da ação? Apesar dos cortes, da desinformação em relação à seqüência original da filmagem e das perguntas que foram feitas, deixar seu personagem falar todo o tempo sem interrupções (apenas sorrisos sutis que se pode ouvir ao fundo) e sem uma determinada continuação lógica é uma forma interessante (e por que não dizer poética) de retrato.
Fechar seu filme com novos planos-detalhes, já após algumas considerações poderem ser feitas pelo espectador em torno do personagem, propicia um momento não de conclusão (filosofias a parte, talvez a impossibilidade de concluir um assunto/pessoa viva num documentário seja sua única “verdade” incontestável), mas de contemplação dos inúmeros significados que o silêncio pode conter. Observam-se seus pés quietos (enquanto sabermos estar escrevendo sob uma mesa) com o esmalte vermelho e o chinelo, seu cigarro no cinzeiro, sua solidão.
O plano final concentra a câmera bem próxima do rosto de Tomba Homem, porém, a imagem fica sem foco. Uma música da Carmem Silva toca no fundo e ele a canta. Parece chorar, secar discretamente as lágrimas. Assim nos despedimos desse personagem, do vislumbre de sua trajetória, de uma iminência de fim sem constatações ou julgamentos de valor.
*Confiram aqui texto de Marcelo Miranda abordando Tomba Homem juntamente a Isto é meu e morrerá comigo, do mineiro Fábio Carvalho para a 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filme Citado:
Tomba Homem (idem, 2008/Gibi Cardoso)