
por Leonardo Amaral
O cinema independente americano não é um segmento uniforme, com suas regrinhas e fórmulas, até porque varia muito em formatos, estéticas, temáticas e mesmo em recorrências. Logo, não é possível falar de um único cinema indie, mas podemos constatar alguns elementos que, vez ou outra, aparecem em alguns desses filmes com esse tipo de ‘selo’. Sem entrar aqui em questões qualitativas, há, por exemplo, tentativas do uso do humor non sense, que, quando bem utilizado, pode suscitar em críticas e reflexões acerca de um mundo marcado pela não-explicação de várias de suas questões. Um outro elemento característico é a utilização de uma estrutura de episódios que se cruzam: artificio, aliás, que marca todo o cinema; desde de Griffith é um recurso narrativo, sendo que, há, sobretudo em alguns filmes atuais que tentam, por meio desse recurso, mostrar o quanto às questões particulares são também universais – os mundos que se cruzam são a metáfora do próprio ser humano e suas aflições, angústias, felicidades. Anywhere USA, como o próprio título indica, são retratações de fatos que, de uma certa forma, podem ocorrer, segundo o filme, em qualquer lugar dos EUA. Para tanto, o filme vai lançar mão dos dois artifícios supracitados: Chusy Haney-Jardine divide a estrutura narrativa em três segmentos, penitência, perda e ignorância, e, sem qualquer tipo de pudor, estético ou sexual, vai utilizar as situações non sense como atributo crítico.
Porém, como em muitos filmes, em especial em alguns que aparecem dentro de uma dessas estéticas do cinema independente americano, o humor empreendido escapará de seus limites e a crítica que se propunha acaba por se mostrar bem mais vazia. E, como em muitas das propostas de narrativa fragmenta e intercruzada, os núcleos narrativos não possuem um elo consistente e, para que eles possam se conectar, quase sempre há uma espécie de sacrifício das pequenas estórias, que, em muitos casos, se mostrariam como bons curtas se não necessitassem de se juntar a um todo fílmico. São bastante frágeis os elos que se colocam para que o filme faça sentido como longa: ele se inicia com uma narração em off, que se coloca como uma crítica ao próprio jeito de ser norte-americano, ficando notadamente explicito que o objetivo do filme era tratar de vários tipos e que o exagero, a farsa irão imperar; já no final, o off retorna simplesmente como justificativa de todo filme, ele nada mais quer do que explicar o intuito de unir aquelas três narrativas, no entanto, isso não se dá de maneira natural, muito pelo contrário, se apresenta bem forçado.
Das três estórias, as duas últimas funcionam melhor estruturalmente, em especial a do aristocrata que decide conhecer um negro após um momento de reflexão durante um banquete – esse fragmento vai dizer diretamente de uma espécie de hipocrisia social. Já a primeira, do casal pouco convencional que se envolve com elementos de terrorismo, traição e paranóia, vai buscar na escatologia e no pânico social em relação ao terrorismo os motes para sua construção. O que vemos são milhares de piadas sexuais, tipos bizarros que se exacerbam na tela buscando o riso, que vem em pouquíssimos momentos. Já a segunda, da menina que procura a fada do dente, Haney-Jardine lida bem melhor com o universo que procura expressar: os enquadramentos se orientam, em muitos momentos, por uma subjetiva da criança, ao mesmo tempo em que há toda uma estrutura narrativa que se justifica (ao contrário do casal excêntrico do primeiro segmento). É possível perceber um desenvolvimento que parte de uma menina enganada pelo tio que a faz acreditar na fada do dente até o momento em que ela arranca um de seus molares em uma vã tentativa de comprovar a existência do fato. É interessante notar a maneira como o diretor lida com a situação, de como o absurdo é usado como uma expressão de ironia.
No entanto, como já foi reforçado, esses dois últimos episódios funcionariam muito melhor se estivessem fora do todo, suas tentativas de união das partes retira muito do potencial que essas duas ultimas possuem, até porque são esses dois segmentos a representação do que o filme tem de melhor, principalmente no uso do humor non sense, que busca muito mais ser a característica da própria situação de absurdo, de exagero, e muito menos uma tentativa desesperada pelo riso fácil.
Filmes citados:
Anywhere USA (idem, 2008/Chusy Haney-Jardine)