Má Fé, de Roschdy Zem

Por João Toledo

Na sinopse, a receita para um desastre – coisa que, na prática, significa muito pouco ou nada. Entrei no cinema desejando ser surpreendido. Nos primeiros minutos, um bê-á-bá cinematográfico razoavelmente bem conduzido. O filme corretinho só incomodava, talvez, pelo excesso de plano e contra-plano nos diálogos. Mas, em determinado ponto do filme, a falta de imaginação na condução visual se torna o menor dos problemas do espectador.

Dotado da síndrome do “assunto relevante”, o filme tenta levantar questões complexas sobre tolerância, religião e uma série de outras coisas, mas para isso se mune de um discurso ingênuo e tece uma tese social bastante rasa, usando seus personagens de marionetes, guiados pelas circunstâncias que o roteiro impõe e por uma trilha pop insistente.

A falta de imaginação da direção passa a fazer sentido na medida em que o filme se revela como sendo, essencialmente, um filme de roteiro – onde o importante é o enredo, os personagens e a lição que tiraremos dali. Começamos a entrar em um terreno infelizmente mais guiado pela tese que se quer comprovar que pelas motivações que possam emanar dos personagens. Ou seja, as ações são mais impostas pelos objetivos do roteiro, pelo destino final a que se pretende chegar, do que realmente trabalhadas no sentido de terem alguma legitimidade enquanto decisão e contingência humana. ‘Roteiristicamente’, todas as ações e escolhas são colocadas ali por um motivo, atendem à narrativa de forma prioritária.

E tudo isso chega a extremos que de tão óbvios chegam a ser involuntariamente engraçados, revelando sempre um obstinado deus ex machina, que guia obsessivamente o destino do casal protagonista. Próximo do fim, quando o personagem está atrás de sua mulher, prestes a realizar um aborto, ele vai à casa dos sogros atrás da moça e acontece uma série de coisas: 1, descobre-se que a moça esqueceu o celular em casa. 2, a tia, única que sabe do abordo por meio de uma carta, está no quarto ouvindo música alta e não ouve quando a chamam. 3, quando a tia corre para alcançar o rapaz na rua, há um desencontro. 4, quando eles finalmente se topam, o carro não pega. 5, enquanto ele empurra o carro enguiçado rua abaixo, a moça liga da clínica para seu celular, mas, ao tentar atendê-lo, ele deixa o celular cair no chão e se quebrar todo. 6, ele chega à clínica e fica perdido nos corredores até chegar ao quarto vazio da moça e descobrir que ela já para abortar. Já o final, mesmo que eu não o conte, não posso dizer que seja menos óbvio que todo o resto.

Mas, mais do que meramente óbvio – um privilégio de muitos –, há no filme uma explícita auto-importância, uma pretensão de ser sério mesmo fantasiado de bobo. E esse é o grande problema do projeto, afinal, pois sua pretensão não corresponde à proposta. Um filme que, formalmente, intenta-se realista, trata do relacionamento entre uma judia e um muçulmano, e é coberto de estereótipos – aparentemente sem consciência disso – é, no mínimo, uma incongruência. As culturas são ali diminuídas a alguns signos de tradições e piadas recorrentes. Em muitos momentos eu cheguei a pensar “será que não era esse um roteiro para uma comédia, brincando com estereótipos, com esquematismos narrativos etc?”. Faria mais sentido. Talvez o diretor simplesmente não tenha senso de humor, olhando pelo lado positivo. Ou talvez não tenha senso nenhum.

Filmes citados:

Má Fé (Mauvaise Foi, 2006/Roschdy Zem)

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