
Por Gabriel Martins
Cada vez mais a linha entre a ficção e o documentário se torna mais tênue. Ok, isto já foi dito e redito inúmeras vezes, nada de novo aí. Podemos citar vários exemplos de documentários que agregam à sua estrutura opções de linguagem claramente ficcionais como a montagem analítica, a reconstrução de fatos e assim por diante. O interessante aqui é ver como Entardecer, assim como vários filmes contemporâneos de ficção, utiliza da aproximação intensa do real como seu principal meio de construção.
Entardecer nega qualquer explicitação narrativa (isto acontece, gera isso que gera aquilo) de modo a priorizar a documentação de ações cotidianas de seus personagens. Ao mesmo tempo, não censura o estabelecimento de elos e percursos individuais que levem minimamente para algum resultado final. Aquela família ali retratada visivelmente guarda problemas dentro de si, e isto não deixa se ser abordado pelo filme, hora de forma mais direta (“tentativa” de suicídio), hora de forma indireta (certo personagem diz estar se cansando das pessoas). O interessante é perceber, no fim das contas, que estes “problemas” não são tomados como algo extraordinário ou interventor direto do espaço diegético. Sua existência é parte da existência da própria vida, algo que o tempo do filme e sua rigidez colocam para o espectador. Para muitos o filme pode soar como incômodo, principalmente ao espectador que ainda pense que o cinema só possa “contar histórias”, e não “acontecer histórias”. Entardecer faz parte do segundo time, e certamente exige um pouco mais de atenção.
Filmes citados:
Entardecer (Nachmittag, 2007/ Angela Schanelec)