
por Gabriel Martins
Loren Cass narra basicamente a história de três personagens vivendo em Saint Petersburg, na Flórida. Suas narrativas se entrelaçam em uma espécie de poesia urbana, ações não necessariamente conflitantes dramaticamente, mas segmentadas pelo filme. Em linhas gerais, Loren Cass é muito mais um ensaio narrativo experimental do que uma história com início, meio e fim bem delimitados.
Imagens de TV, sons de rádio, um fala em off de um jovem rebelde, todos estes elementos se misturam a imagens dos personagens caminhando pela cidade, brigando, transando, desrespeitando a polícia. O que está em questão é a posição daqueles jovens frente ao mundo e como o contato com a sociedade é pautado por uma extremidade física, a auto-flagelação como única forma possível de encarar a vida.
O filme se perde muito em certas opções de linguagem, como as constantes elipses em fade e outros recursos que não parecem funcionar para além da simples técnica. De outro lado, vale ressaltar o trabalho de câmera, por vezes estático contemplando a ação, por vezes inserido no meio de uma briga. Esta arritmia parece colocar, ironicamente, todo o filme em suspensão, dado a boa articulação da montagem que consegue dosar estes dois momentos: agitação e contemplação, nem sempre compatíveis com a ação diante da câmera (algo sensorialmente inerte aos próprios personagens errantes). No fim das contas é este descolamento narrativo, a falta de uma linha exata a se percorrer no roteiro, que torna Loren Cass uma experiência realmente interessante. Ainda que em certos momentos o filme perca sua força, sem dúvida alguma é uma forte análise sobre a desilusão frente ao mundo.
Filmes citados:
Loren Cass (idem, 2007/ Chris Fuller)