Hannah Takes The Stairs, de Joe Swanberg

por Gabriel Martins

 

 

John Cassavetes, tanto em Sombras como em Faces, assim como em outras obras de sua carreira, demonstra um enorme interesse pelo rosto humano. A maneira como este rosto se comporta, as possibilidades de enquadrar uma ou mais pessoas, a fala em improviso, basicamente o ser humano como um objeto de observação e estudo é um elemento particular na sua cinematografia. Estas mesmas idéias parecem se aplicar em Hannah Takes The Stairs, filme interessantíssimo exibido no primeiro dia da Mostra Indie.

 

Pode-se perceber no trabalho de Joe Swanberg, Young American Bodies, série para internet (link: http://www.youngamericanbodies.com/), seu interesse pelo diálogo, o improviso, e a forma como filma com muito interesse a expressão corporal de forma naturalista. Os atores em Hannah Takes The Stairs não explicitam a atuação em nenhum momento, como se tudo aquilo fosse um reality show. Em parte é, dada a tamanha improvisação e a aparente semelhança dos personagens com eles próprios na vida real, ações que emanam de idéias próprias e menos de uma rígida elaboração pré-filme. Há, sim, um roteiro, um caminho claramente traçado para os personagens, mas, no fim das contas, vemos que ele é menos importante do que as situações momentâneas. Cada cena de Hannah Takes The Stairs é um elemento atrativo por si só, de grande relevância como um projeto de estudo de imagens sem se dever a uma estrutura maior que o molde – o improviso nega este controle.

 

O corpo está em questão desde o primeiro plano do filme, a nudez imediatamente colocada não como um elemento de evidência, que choque o espectador, mas como algo inerente ao filme, natural. O desempenho dos atores, sem dúvida, é essencial para este resultado. A atriz Gerta Gerwig coloca uma personalidade encantadora em sua personagem Hannah, algo fundamental para apresentar a ambigüidade da garota – sua expressão de constante insatisfação é linda. Seu corpo é o elemento chave do filme. A elasticidade do seu rosto, seu sorriso, o estilo de cabelo, tudo isso converge para uma belíssima composição visual. Em uma de suas conversas com Matt, seu rosto permanece enquadrado em um longo plano, mostrando o choro, a dúvida, o sorriso, a tristeza, tudo unido e encadeado em um momento de êxtase emocional e cinematográfico que não pula da tela, sendo uma beleza que emana da simples constatação de ver ali uma figura humana, natural, espontânea.

 

A montagem de Swanberg permite diluir a naturalidade em uma estrutura ficcional, de plano e contraplano, continuidade e etc. E suprimindo a sensação bruta de um corte, o desempenho dos atores ganha um maior destaque. Swanberg encadeia a atenção para a fala em mesma proporção que valoriza a atenção à recepção da fala, o som que invade do extra-campo complementando a expressão do personagem que apenas ouve. Tudo é válido de se observar, tamanho o interesse pelas pessoas.

 

No seu plano final – SPOILER -, Hannah toca trompete nua na banheira com Matt, também nu, que também toca trompete. Cenas antes no filme os dois tentavam acertar as notas, a técnica para se tocar o instrumento e a sintonia necessária para o dueto. O som imperfeito que sai demonstra exatamente isso, um filme baseado na imperfeição da vida e do próprio corpo. E este plano final define isso: nenhum diálogo, apenas dois instrumentos de som imperfeito, duas pessoas de corpos imperfeitos imersos em uma banheira cheia de água. Hannah Takes The Stairs é ciência do corpo, do sentimento, do próprio ser humano. E mais que isso, é um filme maravilhoso sobre imagens da vida.

 

Filmes citados:

 

Sombras (Shadows, 1959/ John Cassavetes)

Faces (idem, 1968/ John Cassavetes)

Hannah Takes The Stairs (idem, 2007/ Joe Swanberg)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.