
por João Toledo
Foi bastante grato esse primeiro contato com o cinema de Kiyoshi Kurosawa. Ainda relativamente desconhecido do público brasileiro, Kurosawa tem sido apontado como um dos grandes talentos do cinema japonês contemporâneo, especialmente por seu terror que caminha na contramão daquilo que se acostumou chamar de “terror japonês”, apropriado por Hollywood numa série de remakes recentes.
Tokyo Sonata, então, marcaria o primeiro desvio de Kiyoshi do cinema de terror, primeira mudança de chave em sua encenação. Mas, ao que tudo indica, ainda que em outro gênero, ele parece ter uma mesma pretensão de se deslocar da representação habitual de determinadas ordens cinematográficas. Portanto, quando Kiyoshi elege Debussy e sua belíssima sonata Claire de Lune para fechar o filme, é possível pensar que, nesse enorme detalhe, está uma pista não apenas sobre o filme em si, mas sobre o próprio realizador.
Debussy era considerado um músico quase subversivo, um constante pesquisador de linguagens sonoras, renovador do vocabulário harmônico de seu tempo. Essa pesquisa de linguagem, esse interesse por jogar com as possibilidades dos procedimentos de criação – característica forte do músico francês – parece ser um ponto de partida interessante para o diálogo com o filme de Kurosawa, que traça caminhos muito ousados e pouco convencionais.
Durante a primeira metade, o filme caminha – e caminha muito bem, diga-se de passagem – de maneira bastante rigorosa. Diante de nós, o cotidiano de uma família a ponto de ruir. Um pai desempregado, ainda em fase de negação de sua nova realidade, o filho mais novo, com problemas na escola e decidido a fazer aulas de piano, o filho mais velho, decidido a entrar para o exército dos Estados Unidos e se tornar cidadão americano, e a mãe, perdida em meio a esse caos. A câmera é sufocante; o cotidiano e um espaço contido, apertado, as funções no lar parecem ser meramente utilitárias. O ambiente geometrizado divide as pessoas, segrega, separa, setoriza. Muitas vezes os enquadramentos até prendem seus habitantes, os cortam ao meio e os colocam atrás de barras usando os objetos do ambiente criando uma sensação de tensão fria. Não há iminência de algo surpreendente, mas gera-se um incômodo. Cria-se um espaço de pouco afeto, e um palco para a ruína que virá em seguida.
Assim como, em determinado momento do filme, quando ocorre a revelação do desemprego do patriarca, há um rompimento diegético com a tradição e aqueles personagens se desprendem de seus valores morais, há também um rompimento formal com que o próprio diretor estabelecera enquanto proposta. Se estética e narrativamente havia um motif sendo perseguido, a partir de determinado ponto do filme ele é completamente subvertido e transformado em uma jornada que atira seus personagens numa vertiginosa seqüência de acontecimentos desconcertantes. O filme subverte a lógica do drama familiar realista e intimista e embarca numa pesquisa limítrofe das reações de seus personagens – nesse movimento, análogo aos contrastes entre andamentos em uma peça musical, o espectador é atirado completamente para fora do filme. Ele, assim como os personagens, é testado; ele precisa sair de sua posição passiva para voltar a dialogar com o filme, é tirado de sua zona de conforto e é perceptível na sala de cinema uma reação avessa à quebra proposta.
Os personagens são levados às fronteiras da representação, usados como joguete em um espaço urbano já expressionista: pouco acessível, desumano e incompreensível. E é nessa montanha russa, onde acontecem coisas de ordem absurda – ladrão desastrado que seqüestra a mãe e é ajudado por ela; pai que se torna faxineiro de um shopping e acha no banheiro um envelope cheio de dinheiro; pai que é atropelado no meio da rua; garoto que foge pelas ruas e ajuda um amigo asmático; menino de 10 anos que é preso, fichado e levado a uma cela cheia de detentos –, que nos deparamos com os personagens a cada cena mais despidos, mais desagregados de seus valores, de suas repetições cotidianas, a cada momento mais humanizados, entregues ao erro, sujeitos de suas trajetórias, ainda que totalmente perdidos dentro delas.
Ao fim, um movimento de regresso, retorno a casa, à sobriedade – tanto narrativa quanto estilística -, e ao cotidiano de uma família re-unida. O pai se levanta do atropelamento, a mãe do estupro e o filho da cadeia; e essas trajetórias são deixadas pra trás, como se só tivessem ocorrido para cada um deles, existido em seus universos particulares. A música se acalma, o pai devolve o dinheiro encontrado no banheiro, a melodia é suave, é a vez de o menino tocar, o final é ao mesmo tempo seco e lírico, a sonata termina, eles se levantam.
Filmes citados:
Tokyo Sonata (Idem, 2008/Kiyoshi Kurosawa)