Desonra, de Masahiro Kobayashi

Por João Toledo

Masahiro Kobayashi, ainda que tenha obras desiguais, é figura bastante interessante no cinema contemporâneo e também bastante consciente de seu processo criativo, de sua busca expressiva, pesquisa estética etc. Vendo sua obra de trás para frente, tendo começado, portanto, pelo mais recente, O Renascimento, é possível perceber uma depuração sistemática das referências, da estilística mais pulsante. À medida que vamos voltando, assistindo aos filmes anteriores, vemos uma maior exploração das possibilidades de movimento, mais citações cinéfilas, mais estetização etc. Aos poucos, o cinema de Kobayashi vai se radicalizando em sua minimização de elementos, em seu silêncio, na purificação da imagem, esvaziamento total de símbolos, limpeza estética; tudo vai aos poucos se tornando mínimo, essencial. O Renascimento é bastante forte em sua quietude, em sua não erupção estetizante; chega a ser sufocante o quão entregue a câmera está à repetição do cotidiano, ela presa a ele como os personagens, observa não só as mesmas cenas, mas dos mesmos ângulos.

Desonra – penúltimo filme de Masahiro, inspirado na história real da japonesa feita refém enquanto fazia trabalho voluntário no Iraque, e que, ao retornar ao Japão, é totalmente rejeitada e humilhada pela sociedade nacionalista conservadora –, apesar de vários bons momentos da relação entre a jovem e seus pais, é um filme do qual emana muito mais uma pretensa vontade de ser eloqüente do que de fato um resultado intenso sobre a história aterradora da garota. O resultado, em muitos momentos, é perdido pela inexpressividade da atriz, que parece estar mais incomodada, fazendo caretas estranhas, do que realmente triste, emocionada. Em muitos momentos, ao mesmo tempo em que ela parece sentimentalmente alheia à sociedade que a rejeita, a câmera parece querer buscar nela a face da injustiça. Existe um movimento de vitimização da personagem na forma como a câmera se posiciona e busca bruscamente o rosto da atriz. O filme se posiciona em excesso, discursando por vezes de maneira simplista como se buscasse mais o impacto, o choque, do que realmente um debate sobre certas atitudes. Mas, ao longo da narrativa, percebe-se uma intenção em criar um espaço para a reflexão, em não querer deixar pronto um discurso ou uma visão de mundo, em contar uma história com uma câmera, ou acompanhar um personagem por algum tempo e percebê-lo através de movimentos, cortes e distanciamentos.

Ainda assim, é um filme essencialmente de movimentos que se contradizem; ele se faz de um esforço por grandiloqüência que muitas vezes culmina em excessos estilizados, planos tortos, cortes em demasia, e, ao mesmo tempo, adquire grande potência expressiva quando permite que a cena flua, que as angústias se manifestem, que algo de inesperado dê novo relevo à superfície do filme. Visto não como uma obra solo, mas como uma obra de transição, inserida em um contexto e se transformando no interessante projeto de cinema que O Renascimento prevê, pode-se considerar Desonra como sendo um filme bastante interessante.

Filmes citados:

Desonra (Bashing, 2005/Masahiro Kobayashi)

O Renascimento (Ai no Yokan, 2007/Masahiro Kobayashi)

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