Samurai do Entardecer, de Yoji Yamada

Por João Toledo

 

Samurai do Entardecer, o primeiro filme da trilogia de Yamada sobre os samurais, se possui muitos ou todos os mesmos pontos positivos de Amor e Honra, também padece dos mesmos problemas. De certa maneira, falar desse filme é quase como reiterar o óbvio, pois se trata de algo bastante acessível, e que assim se pretende. O esmero no desenvolvimento visual, a direção de atores cuidadosa, a atenção aos detalhes do cotidiano daqueles samurais burocratas; tudo no filme é desenvolvido de maneira a atender ao rigor técnico dos padrões de uma indústria cinematográfica. E é perceptível que se dá uma enorme importância à relação do filme com o espectador, não apenas no apuro visual, nos movimentos suaves e em sua textura agradável e convidativa ao olhar, mas também no fluxo narrativo extremamente objetivo, focado e bem delineado. O espectador está sempre um passo à frente dos personagens, já sabe que eles se gostam e que vão se apaixonar, enquanto os personagens ainda negam isso.

Essa trilogia, desenvolvida por Yamada depois de insistentes pedidos de Akira Kurosawa pra que esse fizesse um filme de samurai, tem um ponto de partida muito interessante; a noção proposta, de uma desconstrução da imagem glamourizada do samurai, traça um forte diálogo com o cinema americano, com o western fordiano, com a trajetória melancólica do herói em seus momentos finais. Nesse sentido, por trás da desconstrução há um interessante movimento de humanização desses seres mitificados. E isso o filme faz muito bem. A relação que se desenvolve entre o samurai e sua amiga de infância, ou entre ele e suas filhas é bastante singela, pouco dramatizada, atrai a atenção justamente pela expressividade dos detalhes. E isso tudo é desenvolvido em meio a uma contextualização histórica precisa. Talvez seja justamente por isso que soa tão injustificável e vagamente irritante o uso didatizante da narração em off da filha do samurai. A imagem é tão precisa, o enredo tão enxuto, tudo está tão às claras, penumbras bem iluminadas, sons expressivos ressaltados, emoções demonstradas, ambientes percorridos pela câmera... O uso da voz em off te guia como um cego por entre lugares que você já sabe de cor.

Se em Amor e Honra era o excesso de diálogos que explicitava tudo aquilo que já estava translúcido, em Samurai do Entardecer é a narração emocionada da velhinha sobre seu pai, que foi feliz mesmo na falta de sorte, que faz o papel de servir de guia da trajetória do honrado samurai, apenas reiterando o óbvio. É uma escolha que parece se justificar muito menos pela necessidade de guiar eventuais espectadores desatentos que pela vontade de traduzir o final melancólico da morte do pai e fim da era samurai em tom otimista, negando que a pobreza e falta de sorte tenha interferido em sua felicidade. Essa informação, no final das contas, interessa muito pouco, pois não acrescenta nada à reflexão sobre aqueles personagens, não diz nada que já não foi dito em imagens, e confere ao final um tom pedante e ingênuo, que classifica a importância de seus personagens e de tudo aquilo que os move bem abaixo da importância que se dá à alegria e otimismo do espectador ao sair do cinema não pensando sobre o filme. Afinal, não há espaço para reflexão.

Filmes citados:

Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei, 2002/Yoji Yamada)

Amor e Honra (Bushi no Ichbun, 2006/Yoji Yamada)

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