
por Leonardo Amaral
O vídeo - até por ser um suporte leve e que o possibilita esmiuçar as propriedades plásticas da própria imagem - é um dispositivo que permite uma maior liberdade, ocasionando uma estética catalisadora de imersões espaciais e temporais. O super-8, muito por conta de sua granulação, de seu formato mais compacto, se caracteriza por uma imagem mais ‘caseira’, não por menos, há uma profusão de filmes – sem entrar no mérito qualitativo – que lançam mão dessas possibilidades como uma espécie de resgate de um passado intimo. Hoje, com o advento das câmeras digitais, essas têm se tornado uma alternativa para esse cinema outrora captado pelas câmeras super-8. De uma certa forma, Quando eu era uma criança lá fora somente é possível graças a essa investida nesse tipo estético.
John Torres procura nos enquadramentos (que fogem do convencional, por vezes existe até um exagero em quadros não tradicionais, como aqueles que apresentam o corpo em posição diferente da convenção vertical) e na própria textura a construção de um universo de redescoberta, de retorno, num filme com aura de uma quase auto-análise, principalmente no que diz respeito à relação entre o diretor e o pai. Em seu primeiro longa, Torres procura uma viagem ao seu próprio existir, poético (como percebido nos versos que sua voz em off relata) e de constatações – está no olhar ao passado, como nos primeiros planos que remetem à infância, o entendimento do agora. Torres caminha por lugares filipinos para encontrar o seu intimo processo de vida, de como a falência do pai (quando esse revela ter um relacionamento extraconjugal que lhe deu outra família) implica no exílio do cineasta, sendo que o retorno, tempos depois, vai dizer muito de uma pessoa que antes procurava a negação de vários fatos e que, ao final, em sua narrativa em off e com a sobreposição de imagens de seu país, vai afirmar que acredita em tudo aquilo: “eu acredito”, essa a expressão repetitiva, que não deixa de reforçar uma posição de quem passou a ver o mundo por outros olhos.
Enquanto os personagens caminham por um parque, em um plano-seqüência, ou quando a câmera, quase sempre na mão e em busca do corpo, do gesto, a trilha e a narração estão em busca do pretérito. Torres procura esse rompimento da sincronia. Seu filme é, na verdade, uma experiência diacrônica cuja representação está na textura do vídeo, em sua descontinuidade e na relação estabelecida entre o corpo e a câmera, como nos momentos em que a proximidade da câmera quase se funde ao objeto representado. O foco torna-se um elemento de percepção desse mundo também, o fora-de-foco, seguido da retomada do focalizar, remetem ao próprio olhar que passa a enxergar o universo que o cerca. Mesmo se perdendo um pouco em sua estética estabelecida, de querer sempre reenquadrar o mundo (não por menos os já comentados enquadramentos excêntricos), Torres consegue realizar um filme-processo que faz do particular um local para se falar daquilo que atinge a todos nós, que pertencemos ao mundo e que procuramos, de alguma maneira, entendê-lo.
Filmes citados:
Quando eu era uma criança lá de fora (Years when I was a child outside, 2008/John Torres)