
por Ursula Rösele
Antes de qualquer coisa, para além de narrativa sobre um roteirista em aparente crise criativa que o leva a beber exaustivamente noite após noite até ser expulso dos bares e ir de encontro a mulheres, Na Hora de Fechar é um filme sobre e para o cinema. Metalingüístico, apaixonado e melancólico. Inicia-se com uma citação a frases de Billy Wilder e Truffaut que diziam algo como “não me relaciono com as mulheres de meus filmes” (Wilder) e “não consigo deixar de me relacionar com as mulheres dos meus filmes” (Truffaut), seguida de um off que diz concordar com ambas.
Todo o filme é dividido em atos com subtítulos que apresentam momentos – em tese – isolados da “trama” principal, que sugerem uma espécie de diálogo com um cinema feito à época da Nouvelle Vague, em preto e branco, metalingüístico, com uso de jump cut, em divagações que podem até insinuar serem esses instantes insights do roteirista em busca de inspiração. Como se numa narrativa à parte dos atos, o roteirista (na parte do filme que é colorida) ruma para um quase “não-lugar”, paralisado por uma angústia cujos únicos impulsos são o álcool e o sexo. Álcool que reflete uma necessidade de paralisar-se diante da insatisfação e sexo sem gozo, sem amor, sem vivacidade.
O filme é como que um reflexo de um receio de cinema morto (no qual não se renovam excitações criativas, somente se repetem fórmulas e lamenta-se a ausência de mestres que não mais existem) ou até um possível questionamento se ainda há lugar para o cinema de roteiro nos dias atuais. O único momento em que o roteirista demonstra desejo de carinho é com uma prostituta que subverte suas expectativas e o surpreende ao citar diretores como Dreyer, Bergman, Renoir, Tarkovski, e ouvir dele que não esperava falar de cinema com ela naquela noite.
A solidão e o medo da finitude também se apresentam como questões internas para o personagem, que de certa forma também é criador, já que escreve roteiros. Sua frase recorrente é “now is now”, dita em inglês mesmo e colocando o cinema como instrumento de eternização, como registro de manutenção da memória. Se não há outra forma de viver o “agora”, que se registrem as inquietações e maravilhas do momento, para que ao menos através da arte elas sejam capazes de sobreviver.
Filme Citado:
Na Hora de Fechar (Closing Time, 1996/Masahiro Kobayashi)