
por Ursula Rösele
Durante a semana da Mostra do Cinema Japonês, estivemos diante de variadas obras, estilos, estéticas, numa possibilidade ampliada de conhecer grande parte de cineastas nipônicos, para além dos mestres Ozu, Kurosawa e Mizoguchi. Dentre eles está Yoji Yamada, que teve cinco filmes exibidos sendo três deles parte de sua saga do personagem Tora-San, que totaliza 48 longas em uma surpreendente carreira que – aos 77 anos – já abriga a marca de 72 filmes.
Apesar de só ter tido acesso a dois deles (Tora-San), a impressão que se tem é a de estar assistindo a uma série que, apesar de seguir determinados moldes que se repetem, traz sempre um vigor, uma sensação agradável de leveza e doces demonstrações de humanismo. Tora-San é um vendedor do que podemos chamar “bugigangas” que passa a vida viajando por todo o Japão, enquanto sua família (composta por irmã, cunhado, sobrinho e um casal de tios) aguarda sempre ansiosa por notícias e pelas passagens-relâmpago que faz por lá. Essas historietas sempre encabeçam a presença de alguma mulher pela qual o personagem se apaixonará, mas, ao final, será mais um amor não consumado.
Em Tora-San Reencontra Lily, o primeiro da série que foi exibido na Mostra, Yamada apresenta seu personagem através de uma forma de metalinguagem interessante. O primeiro plano do filme é um plano geral de um navio antigo, em tons coloridos que – tomando-se as devidas proporções – parecem um pouco com as cores de A Vida Marinha de Steve Zissou, do americano Wes Anderson. Dentro dele diversas pessoas são prisioneiras de um vilão que as amarra e tortura. Até então – para desconhecidos dos filmes de Tora-San – a impressão que se tem é a de que aquele é de fato o filme. Tora-San surge como um pirata que irá salvar a todos ali no navio, sendo a primeira aquela que ele descobrirá ser sua irmã, descoberta que gera um momento muito engraçado no qual todos ali presentes (que depois saberemos serem a irmã e os tios verdadeiros de Tora-San) choram exageradamente de satisfação.
Surge então um plano aproximado de Tora-San dormindo dentro de um cinema à luz da tela, que parece exibir os créditos de um filme que ele não viu. Vimos, com ele, seu sonho pueril de cuidar das pessoas e salvar aqueles a quem ama. É um princípio que rege toda a jornada do personagem. Tora-San parece ser a criança dentro de Yamada que tornará possível externar sua paixão pelo Japão, utilizando-se dos mecanismos do cinema para transpor na tela uma inocência que guarda belas visões não somente do país, como de uma idéia de carinho pelo outro que certamente deixa a sensação de que os japoneses amam a série Tora-San (hipótese confirmada em posteriores pesquisas da obra do diretor).
Há uma questão curiosa nos filmes dessa série: de certa forma, ao longo da narrativa, apesar de ser ele sempre aquele que chamamos de “protagonista”, Yamada constrói uma descentralização do personagem Tora-San, como se ele fosse de fato uma espécie de narrador onisciente, porém, em suas viagens somos sempre apresentados a conflitos de outrem, histórias outras, que serão transformadas com a aparição do personagem central, mas que possuem vida própria.
Yamada parece seguro da estética escolhida para os filmes Tora-San. Uma construção novelística, que segue moldes do melodrama, seja através do uso da trilha, de enquadramentos aproximados dos rostos dos personagens à inserção de conflitos, além de uma estrutura também teatralizada de narração.
Em um determinado momento de Tora-San Reencontra Lily, por exemplo, ele tem uma briga com Lily e retorna à sua casa. Yamada enquadra os tios e irmã do personagem sentados um de frente para o outro, com o fundo do campo fora de foco. Eles falam de Tora-San, de seu paradeiro desconhecido e mencionam uma visita que Lily havia feito a eles. Percebemos, então, Tora-San chegando à porta, ao passo que os três não o vêem. Tora-San entra em cena ao ouvir o nome de Lily e agora vemos os quatro e o fundo de quadro permanece sem foco. Quando Lily chega, até ser percebida, somos nós os espectadores os únicos a notá-la no ambiente. Toda essa seqüência é dividida em cortes secos e enquadramentos que vão do plano aberto sem profundidade de campo ao plano aproximado dos personagens que entram em cena.
Através dessa leitura lúdica e fabular, Yamada desenvolve histórias que, além de declararem seu amor pelas belas paisagens existentes no Japão, trazem consigo instantes de muita beleza por meio da sutileza com que sai dos momentos teatrais e satíricos para as ações que encontram ensinamentos de amor, amizade e muito carinho.
Filmes Citados:
Tora-San Reencontra Lily (Torajiro aiaigasa / Tora-san Meets the Songstress Again, 1975/Yoji Yamada)
A Vida Marinha de Steve Zissou (The life aquatic with Steve Zissou, 2004/Wes Anderson)