M - Vidas Duplas, de Ryuichi Hiroki

por Ursula Rösele

 

Em M-Vidas Duplas o diretor japonês Ryuichi Hiroki parece seguir uma temática recorrente em seu cinema, advinda de referências e possíveis inspirações do trabalho que realizou no início de sua carreira como assistente de direção na indústria pornográfica do Japão, mais conhecida como “pinku eiga”. É um diretor cujos filmes são inéditos no Brasil, mas tem muita visibilidade no exterior (realizando muitos em digital).

 

M-Vidas Duplas segue um tom fetichista forte e provocativo – principalmente se pensarmos que ele lida com o universo feminino de maneira complexa em termos do rompimento com determinadas barreiras culturais do país – balizado principalmente em traumas e dramas psicológicos dos personagens que conduzem a narrativa.

 

No decorrer do filme a sensação que se tem é de que o diretor se perdeu em meio a diversas “vontades” de abordar conflitos e seu filme se transformou num emaranhado que parece resultado de uma ânsia do retrato do inconsciente doente de seus personagens através de diversas “fórmulas” estéticas, subversões de expectativa e busca de reflexão sobre os perigos da modernidade. Problema algum em utilizar-se de fórmulas, aliás, não fosse a maneira atabalhoada com a qual Hiroki constrói o caminhar de sua narrativa, perdendo-se em meio a um aparente universo de propostas e idéias que acabam por torná-lo monotonamente confuso.

 

A princípio o filme acompanha a rotina de um casal com seu filho pequeno: pai trabalhando, mãe cuidando da casa, filho na escola. Uma noite a mãe chega de uma comemoração com antigos colegas e diz ao marido que foi assediada, ao passo que ele ignora e vai dormir. Daí em diante o filme instaura algumas inseguranças do marido em relação à esposa, através de pequenos diálogos entre os dois ao fim do dia (ela sempre chegou em casa logo antes dele sem dizer – ao menos ao espectador – de onde veio) e de conversas com um colega de trabalho que gosta de pornografia na internet.

 

A presença de equipamentos como celulares, computadores e máquinas fotográficas digitais no filme é constante, inclusive na maneira do diretor colocar o conflito dos personagens (com pequenas cenas cuja imagem precária sugere terem sido registradas por uma câmera de celular). É nessa tentativa de inserir diversos temas da sociedade japonesa moderna que Hiroki perde o ritmo regular do início do filme. Há um marido/pai confuso diante da possibilidade de sua esposa estar envolvida com o comércio sexual, a esposa que vive entre o recato e uma suposta tara pelas atividades que faz escondida, o jovem que a conhece através do filho pequeno com quem jogou beisebol e parece aficionado com a mãe, o cafetão que a explora, o funcionário comum de uma empresa que consome o produto que a esposa de seu colega de trabalho faz.

 

Nessa confusão toda, há uma fixação pela subversão de expectativa, como se esta fosse a única forma de tornar o filme instigante. A maneira de enquadrar o jovem quando olha para o garoto pequeno insinuando, talvez, alguma perversão pedófila; a ausência do contra-plano quando o marido olha para a tela do computador a qual o colega de trabalho mostrou fotos pornôs, aludindo – com a posterior inserção de pesadelos do marido com a esposa transando com outros homens – a uma possível paranóia irreal; até chegarmos ao ponto que parece central no filme: os conflitos psicológicos do jovem que matou o pai e da esposa que se viu envolvida numa rede de perversão sexual da qual não consegue se livrar.

 

 Num crescendo de inconsistentes inserções de dramas e conflitos, M – Vidas Duplas chega à sua catarse de uma forma tão pouco convincente (não em algum sentido pragmático que sabemos inexistir no cinema, mas pelas falhas em tentativas claras de retratar uma situação), que acaba por se tornar – ao menos para aquela que vos escreve – uma experiência frustrada de uma boa intenção.

 

Filme Citado:

M – Vidas Duplas (Emu/M, 2006/ Ryuichi Hiroki)

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