
por Leonardo Amaral
Os personagens dos irmãos Dardenne carregam no corpo as marcas do passado: o corpo inscreve uma espécie de fardo, sendo que não há um chão, uma segurança para esses seres vagantes. Em A criança o traço está no corpo do filho, carregado e motivador do conflito, que, no entanto, se dá por meio dos instintos do personagem Bruno. Já em O silêncio de Lorna, as ações são calculadas pela personagem principal até o momento de sua falsa gravidez, que passa a ser sua única possibilidade de escape. No entanto, se em A criança havia a inscrição do corpo, a presença como catalisador da narrativa, um conflito com o futuro, em O Silêncio de Lorna, o passado bate à porta a todo o momento e é a ausência o componente infrator da ação.
Algumas sutis diferenças nesse novo filme: a presença de planos mais abertos (como já havia ocorrido em A criança) que ampliam o olhar do espectador e dão ao corpo um novo redimensionamento em relação ao mundo, o distanciamento da câmera funciona como um elemento de desorientação para os personagens, ao passo que o público pode ver a ação em sua maior plenitude – a forma como os irmãos fazem a câmera imergir no espaço traz consigo um não-questionamento, não julgamos ninguém e acompanhamos cada uma dessas pessoas fronteiriças sem onde se prenderem a não ser na ausência, seja física ou de perspectiva. Outro elemento sutil é a trilha um pouco mais presente em relação aos outros filmes, mas sem conotar coisa alguma, ela apenas denota a ação – ela se instaura no ambiente, compõe, mas se interrompe e reforça a ausência, o filme novo dos Dardenne é quase um tratado de não-presenças. Os planos seqüências (um pouco mais fragmentados aqui) estão carregados de passado, dão vazão aos sentimentos dos indivíduos em cena, sendo que, o corte seco em O silêncio de Lorna é ainda mais incisivo, ele dilacera o tempo, interrompe os personagens, que vão, à sua maneira, ficando retidos nesse caminho.
O corpo que é visto em quase toda a sua totalidade, que se pede para bater (quando Lorna pede para que Claudy lhe dê um tapa), se fragmenta, se destrói e se deixa invadir pela luz de fora que, estourada, crua, invade a cena para retirar do ambiente qualquer tipo de ilusão e perseverança. Lorna se fere, literal e metaforicamente, durante boa parte do filme, para alcançar a liberdade, e estar livre é não contar mais com a presença do marido Claudy. No entanto, a morte desse implica em um passado que insiste em continuar, em se inscrever no presente. No agora temos a não-presença do corpo, o tormento da lembrança e a ilusão do filho que não existe (a ausência como nova tentativa de se ser livre).
Lorna corre sem destino, a câmera, sempre na mão, abandona temporariamente a instabilidade de alguns planos, para também percorrer solta os espaços e passos da personagem até o momento de contato com o chão, parada também está a câmera que ainda oscila mas principalmente contempla, enquanto nós, passivamente, observamos a não-chegada: a imagem está repleta de seu pretérito.
Filmes citados:
O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008/Jean-Pierre e Luc Dardenne)
A criança (L’enfant, 2005/Jean-Pierre e Luc Dardenne)