
por Mariana Souto
O filme da estreante Lars Henning Jung retrata uma viagem de 6 jovens a uma casa de campo, jornada que marca a despedida da turma depois da formatura, antes de cada um seguir seu caminho. A diretora cria uma atmosfera de realismo e tensão que remete a reality shows e a A Bruxa de Blair – um Kids com personagens um pouco mais crescidos. Seu intuito parece ser o de gerar o pensamento “Oh, Deus, a juventude está perdida!”, um choque que não atinge de fato o centro do alvo depois de tantos filmes parecidos e, sobretudo, devido ao próprio cinismo que carrega em si.
Ato de violência investiga os movimentos de grupo, os opostos das relações de poder, o opressor e o oprimido, o sádico e o masoquista, a emergência de uma liderança, para no fim concluir que todos são monstrinhos mesmo. A viagem marca um ritual de despedida da infância/adolescência para a fase adulta e um determinado acontecimento drástico funciona para registrar a perda da pureza e da inocência. A partir dele, os jovens não serão mais os mesmos.
O filme mistura elementos modernosos com algumas concepções bastante arcaicas que revelam que a contemporaneidade está mais no estilo do que em ideologias – isso serve para os 6 jovens mas talvez para o longa em si. Strecker, Betz, Maike, Steffi, Jasmin e Sören se envolvem em comportamentos animalescos, primitivos, e não por acaso uma de suas referências são os Vikings. As relações amorosas giram em torno dos pólos macho-dominador, fêmea-submissa. A estética do reality show, a câmera na mão solta entre os personagens, a trilha indie, as imagens de celular como registro alternativo podem parecer modernos, mas escondem mesmo um primitivismo de essência.
Mesmo que os personagens sejam construídos de forma excessivamente monstruosa e uni ou bidimensional (no caso dos bonzinhos que se tornam mauzinhos), os atores oferecem boas interpretações naturalistas. A narração de Strecker, diabo em pessoa, soa inútil, assim como o final em que alguns personagens fazem reflexões acerca do acontecido. Mas apesar dos personagens intencionalmente chatos e das fraquezas já mencionadas, a diretora utiliza de alguns recursos – a cena inicial que mostra um corpo sendo carregado, mas sem sua identidade revelada, nos diz que algo trágico vai acontecer sem sabermos exatamente como, por que e a quem – eficazes para criar um clima de tensão em praticamente toda a duração do filme.
Filmes citados
Ato de violência (Höhere Gewalt, 2008/ Lars Henning Jung)
Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999/ Daniel Myrick e Eduardo Sánchez)
Kids (idem, 1995/ Larry Clark)