Amor e Honra, de Yoji Yamada, e Obrigado Papai Ishii, de Kisako Yamada: um passado olvidado

Por João Toledo

É curioso que os dois primeiros filmes vistos por mim na mostra de cinema japonês - que acontece agora em Belo Horizonte e comemora os 100 anos da imigração japonesa no país – representem olhares sobre o passado, mas que, de certa forma, negam ou ignoram o passado do próprio cinema, elegendo formas e fazendo escolhas narrativas que por vezes beiram o constrangedor.

No caso do Amor e Honra, do produtivo Yoji Yamada – diretor de 77 longas e famoso pela série Tora-san – não se trata exatamente de um desconhecimento do passado do cinema, até porque Yamada viveu esse passado, mas talvez de um comprometimento com um tipo de cinema de fácil acesso, de uma construção narrativa que leva em conta a recepção de forma bastante ampla, o que implica na opção por certas fórmulas narrativas que diminuem o trabalho da imagem – trabalho este que há no filme, ainda que debaixo de uma enxurrada dialogal prolixa, didática e, essencialmente, desnecessária.

Amor e Honra, filme que fecha uma trilogia começada por Samurai do Entardecer – primeiro filme de Samurai de Yamada –, busca desconstruir o imaginário que envolve a figura do samurai. E é uma desconstrução que se dá tanto no campo estético, na forma quase frívola de filmar um combate em contraponto à grandiloqüência usual, quanto no campo temático, na desmistificação do sujeito irreprochável e exemplar que seria o samurai, moral e tecnicamente.

Estilisticamente, o filme, em muitos momentos, remete a Ozu, à sua câmera baixa, observadora atenciosa dos detalhes do cotidiano. Há um respeito pelos personagens e pela sua dor, um cuidado na aproximação que a câmera faz, mas há, antes de tudo, uma urgência da narração que precisa seguir acontecendo e construindo, atendendo a algo supostamente mais indispensável que o tempo de cada imagem. O filme, ainda que tenha bons momentos da construção da relação do casal, de diálogo e de um humor quase trágico que traduz muito bem as contradições fundamentais daqueles personagens, se explica demais, busca excessivamente na palavra o veículo para a sucessão narrativa, reforça coisas que a imagem por si só já deixava óbvias. O filme praticamente não deixa espaço para uma reflexão sobre a transformação dos valores do protagonista, pois eles são expressados em demasia na cena final, são clareados de forma a deixar mais certezas que impressões. Yamada, ainda assim, é um diretor bastante talentoso, e o filme possui diversas qualidades; o problema é justamente que em muitos momentos as qualidades são submetidas a um didatismo diminuidor.

Já o filme Obrigado Papai Ishii infelizmente fica distante dos méritos do filme anteriormente citado. Este sim parece fruto de um completo desconhecimento de tudo o que o cinema já propôs. Ele em muito se assemelha, na precariedade da maneira com que concatena imagens, de um cinema primário, elementar, que ainda se descobria enquanto linguagem. Parece fazer sentido que ele seja resultante de uma motivação mais temática que cinematográfica – como é o caso do filme brasileiro Bezerra de Menezes –, partindo de uma vontade de retratar determinada coisa e tendo o cinema como mero veículo, triste conseqüência das escolhas.

O filme manifesta, a cada nova cena, um grande amadorismo e uma ignorância relativa ao poder do cinema enquanto expressão, quase como se o diretor não houvesse se dado ao trabalho de passar por um processo de aprendizado, partindo para a realização desprovido de bagagem cultural cinematográfica. Em muitos momentos, Obrigado Papai Ishii parece fruto de uma geração formada essencialmente pela televisão, pela narrativa imbecilizada das novelas, pela quase inexistência de uma mise-en-scène. Mas não se trata apenas de uma criação ingênua, cheia de obviedades e simplismos; o que se passa aqui é muito mais grave, é um retrocesso dos procedimentos mais básicos de linguagem, uma aposta um tanto cínica na ignorância do espectador – é um filme de mão única, que quer prescrever o discurso que defende e, para isso, faz da platéia joguete de seu exercício audiovisual pretensamente educativo e potencialmente deseducativo.

A trilha sonora, que em muito lembra em muito lembra os acompanhamentos de teclado eletrônico, com sons sintéticos recheados de efeitos, servem como guia emocional do filme. Não há intenção expressiva com o uso da música, e seu propósito parece ser tão somente servir como reforço/guia emotivo do espectador. Ainda por cima, isso é associado aos mais óbvios usos dos mais desgastados recursos de linguagem: em determinado momento, um bando de garotos diz, em tom metafórico, que o homem deveria tirar a barreira que criou entre eles e seu filho. Corta para o rosto do homem, pensativo. Voz em off de seu pensamento: “será que criei mesmo uma barreira entre eles?”. No plano seguinte ele abre a cerca da casa para que os meninos brinquem juntos. Mais tarde no filme, o protagonista, um assistente social cristão no Japão feudal, começa a rezar, dizendo precisar da ajuda de Deus. No plano seguinte, a imagem de seu rosto é sobreposta à imagem de uma nuvem por onde atravessam raios de sol. Esses exemplos permeiam toda a narrativa, que busca glorificar a ação de um homem acima de qualquer coisa.

O filme é, infelizmente, um grande compêndio de clichês desgastados e lugares-comuns que há tempos pareciam ter sido esquecidos, diante do natural desenvolvimento dos procedimentos de um discurso narrativo. E não há apenas um resgate de chavões empoeirados; a eles, é empregado um caráter de auto-ajuda. Não se demonstra qualquer interesse por desenvolver questões relativas ao ser humano. Importa ao filme reforçar o que é “bom” e “certo” inspirado nos valores do protagonista, como se desenvolvesse uma cartilha de valores cristãos extremamente demagógicos e atrasados. 

Filmes citados:

Amor e Honra (Bushi no Ichbun, 2006/Yoji Yamada)

O Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei, 2002/Yoji Yamada)

Obrigado Papai Ishii (Ishii no Otousan Arigato, 2005/Hisako Yamada)

Bezerra de Menezes - O diário de um espírito (Idem, 2008/Glauber Filho, Joe Pimentel)

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