
por Gabriel Martins
É interessante ver diferentes vertentes de uma cinematografia de único país exatamente para constatar como percepções generalistas nos traem na recepção de um filme. Sempre admirei esteticamente o cinema nipônico, vejo obras como Filho Único de Ozu (exibido na Mostra) como aulas de enquadramento e fotografia, e sempre tive, salvo algumas obras, a concepção do cinema oriental como um cinema de forte impacto visual, de composições belíssimas seja em cenários campestres ou urbanos, enquadramentos concebidos de forma a complementar os filmes, não somente pela beleza – exceto quando, em muitos casos, era a beleza a principal essência. Dito isso, coloco que uma das maiores razões de meu afastamento em relação a Sad Vacation é a sua estratégia de decupagem, a meu ver, em descompasso com a narrativa. Vício do meu olhar ou não, não está em jogo nesta análise qualquer obrigatoriedade de filiação com uma “tradição” cinematográfica, mas a importância que a concepção visual dá a uma história, como ela pode torná-la mais sedutora e atraente.
Em Sad Vacation não há presença de uma concepção visual interessante o suficiente para sustentar a história contada. Por mais que apresente planos interessantes, estes se constroem no isolamento, sem contribuir para um conceito superior à construção individual e imediata. Com isso, o filme se compõe muito mais de recortes – e a própria história é uma grande colcha de retalhos – do que de uma estrutura coesa, potente. Um exemplo do oposto disso é Desonra, de Masahiro Kobayashi (exibido na Mostra), filme que trata sua linguagem com rigor e, por isso, torna-se complementar à própria história ali narrada, a torna muito mais relevante do que de fato ela seria se ausente da linguagem cinematográfica como meio. Em Sad Vacation, a concepção visual contribui muito pouco para a complexidade daquela história, assim como a montagem não consegue obter um ritmo ideal.
O meio da história, quando Kenji vai para a casa de sua Mãe, é o que o filme tem de mais interessante, trabalhando de forma pouco convencional as relações familiares distorcidas e a própria tormenta do personagem em relação ao seu passado. Infelizmente, rumo ao terceiro ato, o grande número de personagens acaba ofuscando o foco principal da narrativa, tornando o filme desconcentrado de suas questões essenciais. Em suma, uma obra pouco interessante para sua longa duração.
Filmes Citados:
Sad Vacation (Saddo Bakeishon, 2007/ Shinji Aoyama)
Filho Único (Hitori Musuko, 1936/ Yasujiro Ozu)
Desonra (Bashing, 2005/ Masahiro Kobayashi)