
por Rafael Ciccarini
Imediatamente após a sessão, brinquei com amigos: “Um Cineasta Sob Influência”, o que, para além da anedota, diz bastante sobre o filme. Primeiro, a gritante vontade de afirmação de maturidade, de deixar claro que ali ‘se está fazendo cinema’, de encontrar um lugar dentro de um universo que se admira e que se quer pertencer, muitas vezes até mais forte do que o desejo de contar aquela história específica (e essa relação é sempre muito difícil de ser resolvida e contornada, entre outras coisas, por isso é tão difícil fazer cinema).
Nada de errado e perfeitamente natural, aliás. Primeiros filmes são, em geral, filmes de afirmação e filiação. Aqui, além de John Cassavetes (Uma Mulher Sob Influência, principalmente), estão onipresentes Paul Thomas Anderson, Daren Aronofsky, Lucrecia Martel e todo um imaginário pop-cult (Tarantino, por exemplo), das tiradas espertas, essa inteligência urbana e contemporânea, tão encantadora quanto muitas vezes (e até por isso) descartável.
Ao mesmo tempo, Feliz Natal é um drama de imersão, uma tentativa de mergulho nas lacunas e sombras da vida familiar dessa mesma sociedade urbana e contemporânea. Eis o problema: as histórias, os personagens, as resoluções de cena, movimentos de câmera, não conseguem construir um lugar dramático maior, o filme não sai do esquemático, dos clichês expressivos e conceituais que hoje determinam parte do cinema contemporâneo.
No entanto, é um filme que se resolve bem dentro de determinadas cenas: os espaços de encenação dramática são bem construídos e Selton consegue momentos notáveis de seus atores de uma maneira geral, com destaque óbvio para Darlene Glória. Já Leonardo Medeiros, estereotipado em seu já tipo-ideal ‘morto-vivo-fantasma-que-vaga’ (Corpo, Nossa vida não cabe num opala, Cabra-Cega), acaba por fazer perder um pouco da força de seu personagem.
Enfim, o que temos é um filme com bons momentos, muita devoção cinéfila, mas que não se resolve em nenhuma de suas várias propostas (talvez justamente por serem tantas). Ainda assim, há indícios de talento e paixão, o que não é nada dispensável.
Filmes Citados:
Uma Mulher sob Influência (A woman under the influence, 1974/ John Cassavetes)
Corpo (idem, 2007/Rossana Foglia e Rubens Rewald)
Nossa vida não cabe num opala (idem,2008/Reinaldo Pinheiro)
Cabra-Cega (idem, 2004/Toni Venturi)