O Renascimento, de Masahiro Kobayashi

Uma das discussões recorrentes atualmente no cinema, principalmente o brasileiro, é a segmentação entre filmes para o público e filmes que não são para o público. Segmente desta forma ou de outra, o que muitas pessoas querem dizer em certo sentido é exatamente isso: o que deve ser feito/visto ou o que não deve ser feito/visto. Eliminando-se o caráter ridículo desta divisão, mas atentando-se à gravidade que ela toma aliada a representações de poder (redes de distribuição e exibição de filmes), é interessante pensar como esta estrutura pré-conceituosa toda propõe, além da invisibilidade comercial de várias obras, uma cegueira generalizada do espectador à proposta de cinema como um laboratório de linguagem. O Renascimento, neste caso, seria chamado de um filme que não é para o público. Talvez o maior mérito do filme de Masahiro Kobayashi seja conseguir estabelecer tensão em uma narrativa predominantemente lenta, sem indução explícita à emoção. Muito disso se dá pela estruturação em narrativas paralelas. Logo ao início somos introduzidos a duas pessoas, um homem e uma mulher, que compartilham um incidente em suas vidas: a filha dela matou a filha dele. Desta forma, é criado um elo latente ao restante da narrativa, colocando os dois personagens em um ambiente comum, mas dificultando o encontro entre ambos.

Com isso, o filme estabelece uma relação de antecipação com o espectador (o que acontecerá quando o casal se encontrar?) que é reforçada pela rotina dos atores, da câmera e da montagem. Vemos ações se repetirem talvez mais de dez vezes durante todo o filme. Há tanto a prisão física nos cenários como a prisão estética de movimentos de câmera que, ainda que se alterem sutilmente em certos momentos, montam tanto uma jaula de observação como uma complexa elegia ao silêncio. Compartilhamos, portanto, o sofrimento dos personagens. E é engraçado perceber como, justamente nos momentos de encontro, na possibilidade de algum conflito ou algo vivo no filme, o verbo não chega e a ação não se completa plenamente. Ali não existe mais vida, mas apenas morte na inevitabilidade da solidão e do silêncio – O Renascimento é também uma obra sobre o luto.

O desencontro entre os personagens torna-se a própria intersecção entre filme e trama. Assim como eles estão destinados a viver como linhas paralelas, de tenso cruzamento, o filme coloca por inteiro a revisão às ações como reforço ao sentimento deste mesmo paralelismo: são elementos que, lado a lado, não vão para lugar algum (pense também em uma circunferência dentro de outra, elementos voltando sempre ao mesmo ponto sem saber se cruzar). As extremidades do filme, ou o pensamento que inicia e termina a tese (as entrevistas vistas no começo e no fim da obra), são subtextos que ecoam durante o meio como única possibilidade de preenchimento do vazio para o espectador, algo que, simultaneamente, nos provoca angústia pela expectativa já citada acima (como os conflitos iniciais se concretizarão no filme?).

Não estamos acostumados com o real radicalizado desta forma. É um real de concepção temporal, menos de interpretação, e que sufoca a nossa atenção durante toda a projeção. De forma belíssima, ainda que intragável, O Renascimento consegue ser uma obra insolúvel e enigmaticamente em suspensão, provocando uma constante tensão através da concepção ousada de Masahiro Kobayashi – é impossível sair ileso.

Filmes citados

O Renascimento (Ai no yokan, 2007 / Masahiro Kobayashi)

 

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