Vários e vários – I

por Rafael Ciccarini

rato

A Erva do Rato (Brasil, Julio Bressane,2008) – Sabemos que filme novo do Bressane é sempre um evento. Especialmente após o inacreditável desbunde chamado Cleópatra, seu filme anterior, a sensação de se poder esperar essencialmente qualquer coisa é igualmente intrigante e prazerosa. E A Erva do Rato, para não fugir à regra, surpreende. Bressane fez uma comédia com momentos francamente hilariantes – e não se fala aqui do riso intelectualizado, do fã que reconhece os traquejos e desbundes de “seu” artista, mas de cenas que causaram gargalhadas do público de uma maneira geral. A sensação é de um Bressane leve, brincando com seu próprio imaginário e ao mesmo tempo se arriscando em territórios que atualmente lhe instiguem. Que não se passe, no entanto, a idéia de que não seja um filme difícil, rigoroso, desafiador (é, e muito), mas é justamente por conseguir fazer um filme com níveis de entradas diferentes (e sempre interessantes) que A Erva do Rato parece tão acertado.

samira

Cavalo de Duas Pernas (Irã, Samira Makhmalbaf, 2008) – Trabalho desastroso, desinteressante e por vezes abjeto. Uma mistura atabalhoada de realismo, formalismo (em lamentável leitura do Eisenstein de “A Greve”) e melodrama, que ainda lida de forma no mínimo ingênua com a dicotomia hegeliana clássica senhor/escravo, obtendo resultados diametralmente opostos ao que parece ter pretendido.

liver

Liverpool (Argentina, Lisandro Alonso, 2008)– Experiência extrema de Lisandro Alonso, levando ao limite a rarefação narrativa: há quem diga que um certo limite foi ultrapassado, que aqui já não podemos falar de cinema, dada a quase não-ação, ao tempo morto no seu paroxismo. Não exatamente entrei na do filme (que seguramente não deve ser visto como foi aqui, como o último de um dia de intensa maratona), mas não rejeitaria uma revisita.

derek

Derek (Reino Unido, Isaac Julien, 2008) – Filme-homenagem ao artista e cineasta Derek Jarman a partir de um poema escrito pela atriz Tilda Swinton, sua amiga. Ainda que recaia em estratégias formais relativamente desgastadas, o que é especialmente um problema quando o retratado é um vanguardista e alguém que se envolveu em diversos momentos de contestação e protesto (movimento punk, gay lib), é um filme que encontra seu encanto justamente por não esconder o tom afetivo, de amor, amizade, saudade e também por se colocar de forma clara contra o atual estado de coisas (império do dinheiro, consumo, publicidade etc.). Derek, artista tão intenso quanto controverso, morreu em 1991, vítima da AIDS (sua atitude em relação à doença também marcou época, tendo, num tempo nebuloso, assumido-a publicamente), e tem retrospectiva no próprio Festival do Rio deste ano.

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A Viagem do Balão Vermelho (França, Hou Hsiao-Hsien, 2007 ) – Livre homenagem de Hsiao-Hsien ao célebre O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse. Ao meu lado, na sessão, diversos amigos e colegas na terceira ou quarta revisão do filme. Ao fim, a vontade de rever instantaneamente essa obra ao mesmo tempo grandiosa e singela: Hou combina o aspecto fortemente poético do filme de Lamorisse com uma narrativa intimista do cotidiano de uma pequena família, criando espelhamentos entre as duas instâncias, como que levando o entendimento a um lugar diferenciado de ambas. Enfim, filme belíssimo, desafiador, a ser revisto, ao que parece, sempre que possível.

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Buda Tombou de Vergonha (Irã, Hana Makhmalbaf, 2007) – Ressabiado pela decepção gerada pelo filme de Samira, cheguei ao filme de Hana, sua irmã mais nova (ambas filhas do consagrado diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf) temeroso por um novo desastre. “Dessa vez não vou me torturar. Se a coisa estiver feia, saio com 20 minutos”, me diz um bastante animador companheiro de sessão. Felizmente não foi o caso: Hana fez um pequeno e singelo filme pacifista, que dialoga com algumas das coisas que cinema iraniano fez de mais interessante (como Onde Fica a Casa do Meu Amigo). Ainda que não demonstre grande inspiração visual ou sinais evidentes de grande talento, tem na sua leveza e na talvez ingenuidade seu maior trunfo. Lembra, inclusive, um primeiro cinema de Samira (A Maçã, 11 de Setembro).

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