Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal, Miguel Gomes, 2008)

por Rafael Ciccarini

agosto

Antes da sessão, o produtor do filme conta que se trataria a princípio de um melodrama clássico, mas que, por uma série de razões (especialmente financeiras) o diretor foi a essa pequena região de Portugal e se pôs a realizar um documentário sobre as pessoas e suas histórias. Algo, a princípio, sem uma função precisa, como uma pesquisa que ajudaria na escolha dos atores, melhor composição dos personagens.

O tempo vai passando e Miguel, o diretor, não dá sinais de iniciar o projeto “principal”, a ficção, e permanece no que parece ser um fascínio pelo universo com o qual vinha tendo progressivo contato. Em cena presente no filme, o produtor o interpela dizendo algo como “tenho aqui um roteiro repleto de personagens e ações”, e se põe a ler as descrições dos personagens pré-concebidos. Ao fim, questiona a Miguel: “estamos aqui filmando, filmando, mas onde estão esses atores?”

É o que vamos nos perguntando no decorrer do filme, em meio ao fascínio gerado por uma abordagem tão doce, leve e bem humorada das personagens, seus cotidianos e sentimentos: “quando a história vai começar?”. Eis que, sem percebermos ao certo, ela começa, e já estamos no território do narrativa clássica, com os mesmos personagens “reais” e nos mesmos cenários. Não propriamente uma novidade, sobretudo num país que abriga o cinema de Pedro Costa, mas se, em Costa, há clausura, angústia, confinamento, em Aquele Querido Mês de Agosto o espaço é lúdico, aberto.

Aliás, há aqui belo jogo de relação entre o real, a construção, a imaginação e a memória. No desenrolar do enredo, voltamos a locais onde já estivemos e com os quais já construímos relações outras de afeto, fazendo redimensioná-los, e adicionando texturas simbólicas diversas à ação que vemos naquele momento. Uma espécie de superposição de tempos simbólicos e afetivos, todos eles prazerosos, que acabam por fazer de Aquele Querido Mês de Agosto uma experiência plena de amor em suas diversas possibilidades de sentido.

 

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