
por Rafael Ciccarini

Na Cidade de Sylvia é um belo exercício de amor e fascínio pela imagem, por suas possibilidades expressivas, pelas relações entre a linguagem, a encenação e a fascinante rede de sentidos, sensações e sentimentos que, a partir da forma com que se dão essas construções, pode fazer-se nascer, reverberar, encantar.
Um jovem retorna à cidade onde, anos atrás, esteve e se apaixonou. Atrás de sua Sylvia, portanto, passa a observar as diversas mulheres em cafés, pelas ruas. E é pelo olhar de seu protagonista que Guerin consegue construir os mais belos momentos do filme, especialmente na relação dos corpos com os espaços e objetos (comove o fascínio pelo detalhe, o meneio, como se todo o prazer pudesse estar contido num momento único e íntimo a ser eternamente perseguido).
Ainda que funcione melhor quando a câmera é estática – e vale acrescentar o instigante jogo entre uma cidade que “acontece”, um real aqui ali “está” e uma narrativa que ali quer se construir: há momentos em que a ação sai do plano e o mesmo permanece, como se deixasse espaço para fluência da cidade, como uma respiração necessária que implicitamente se dá entre o diretor e o espectador, para que adiante a imagem reencontre seus personagens e retome esse fascinante jogo de reflexos, nuances e encantamento.
Ao fim, exala o frescor e o mistério do primeiro cinema, uma sensação intensamente prazerosa de fascínio renovado, de tudo a ser feito e entendido.
