
por Rafael Ciccarini

O primeiro longa-metragem de Matheus Nachtergaele narra o cotidiano de uma pequena comunidade ribeirinha do Amazonas às voltas com a celebração anual de seu ritual religioso, uma quase seita cercada por mistérios não ditos e grandes lacunas que, justamente por flertar tão de perto com o absurdo, parecem intensificar a relação doentia dos "seguidores" com o imaginário ritualístico liderado por Santinho (Daniel Oliveira).
Poderia se supor, então, uma imersão incisiva nessa dialética sombria de miséria, isolamento, angústia, fé, culpa, desejo e etc, mas, ao contrário, a gritante e algo irritante vontade "autoral" do filme, a busca febril pela "beleza", pelo "artístico", esvaziam qualquer força que potencialmente poderia dali se extrair. A câmera, por exemplo, em vários momentos sai da ação a vai ao céu encontrar a lua, focalizar a beleza metafórica dos fogos de artifício, ou busca um enquadramento "inspirado" que esvazia o filme de potência, criando um universo simbólico fácil, frágil, inofensivo.
Nada contra a beleza de superfície, aliás belos filmes são feitos a partir da relação de encanto visual de um diretor e algo que de alguma maneira o instigue. Mas aqui o que temos é um filme que se quer forte, que quer lidar com o ser humano em seus limites extremos racionais, religiosos e culturais, e quando temos como resultado imagens perfumadas, repletas de traquejos maneiristas (Lula Carvalho parece ter tomado o filme para si), o resultado é bastante decepcionante.
A própria atuação de Daniel Oliveira, sempre em transe, possuído, antes de soar um personagem sombrio, ambíguo, perdido em seu universo frágil, contraditório, em sua dialética de angústia e auto-engano, parece, em verdade, uma espécie de espelho do diretor: seu Santinho, assim, emula a todo momento o imaginário cênico e dramático de Nachtergaele (por que não, então, ele mesmo não atuou?), o que também acaba por intensificar o distanciamento em relação ao que acontece na tela.
Como o próprio Matheus declarou sobre o filme: “É um filme pequeno, de arte”. Ele está mais do que certo. Infelizmente.

Filme Citado:
A Festa da Menina Morta (idem, 2008/Matheus Nachtergaele)