
A relação entre duas pessoas parece sempre estar a mercê de um terceiro elemento, seja este concreto ou abstrato, que será direto interventor do relacionamento entre ambos. No festival, estas relações tanto se estabeleceram de forma direta, explicitando o terceiro elemento como entrave à relação conjunta ou, em muitas vezes, colocando-o como a principal força dos filmes, trazendo-os naturalidade e beleza singular. A seguir, uma proposta diferenciada de estudo de alguns filmes, propondo perceber a relação destes elementos.
Café com Leite
1 – Danilo vira substituto de seu pai, e isso será essencial para enxergar a mudança de seu relacionamento com Marcos, seu namorado. Ao ter que cuidar do seu irmão Lucas, ele passa por um processo forçado de amadurecimento e precisa aprender a cuidar. É o elemento de transformação do filme, quem dá o tom para o desenvolvimento da narrativa.
2 – Marcos é o namorado preso no meio de uma situação. O ator Diego Torraca estabelece, desde o início, uma química com Daniel Tavares (que faz Danilo) que permite ao espectador ver a questão da homossexualidade em segundo plano, destacando as relações verdadeiramente humanas ali presentes, independente de opção sexual. Marcos faz uma opção coerente, verossímil, demonstrando a honestidade do filme e o respeito por seus personagens.
3 – Lucas é o elemento do meio, hora fardo, hora alívio. Ele vira o pivô do relacionamento dos dois, sendo a cena dele com Marcos em um brinquedo de madeira uma das grandes sacadas do filme. Em suma, Café com Leite é certamente um dos grandes filmes do festival, trabalhando menos a questão da homossexualidade, e mais as relações de afeto entre as pessoas.
Depois de Tudo
1 – O que espera, saudoso, um momento de amor: Nildo Parente não precisa de nome, ele é a saudade.
2 – O que chega, amoroso, para trazer o momento: Ney Matogrosso representa esse amor que sai, querendo logo voltar. Sua presença é o próprio amor.
3 – É o momento em si, o silêncio. Para os dois, nada mais importa a não ser o encontro. Um belo filme sobre o carinho, construindo uma narrativa cíclica, minimalista e interminável. Sobre a soma de dois.
Dizeres Íntimos
1 – Dolores se apaixona por Clara. Ela é o elemento comum entre duas épocas, quem estabelece a transformação da trama. Está em tese, aqui, como o passado, ou uma experiência forte, pode revelar um pouco mais da essência e identidade de uma pessoa. A direção enquadra Dolores quase sempre nos cantos, como se o quadro precisasse ser completado por alguém – evidência maior é a cena após a apresentação, com o rosto de Dolores à direita do enquadramento, antes de Clara aparecer no escuro, ao fundo, vindo completar o quadro.
2 – Clara é a memória, o elemento revelador da essência de Dolores. Ela é idealizada no flashback de forma a intensificar ainda mais a sua ausência nos outros momentos. Estabelece um pacto central do filme:
3 – Os olhares. Dizeres Íntimos se concentra nos olhares, sendo estes um elemento crucial de conexão entre aquelas mulheres. É desde o olhar familiar – uma personagem em certo momento diz ter medo de o local para onde viaja não ser familiar – ao olhar de provocação, de querer. Excetuando-se a forma como registram um acontecimento final, o acidente, o filme é um bom ensaio sobre a memória afetiva, a amizade e o amor interrompido (ou não) pelo curso da vida.
Desejos iguais
1 – Uma mulher, sem essência.
2 – Outra mulher, também sem essência.
3 – Um cotidiano registrado experimentalmente, mas composto, na verdade, por uma ausência de organização e idéias. O simples fato de duas mulheres terem um relacionamento já é base para fazer um filme? Uma experiência vazia.
Meu Namorado é Michê
1 – Um rapaz sai para deixar o namorado trabalhar. Seu rosto não demonstra quase nada. Talvez dúvida, talvez arrependimento, talvez compreensão. Esta indefinição é boa.
2 – O namorado do rapaz é michê. Faz programa como sustento de ambos.
3 – O dinheiro, que parece pautar a relação, é um elemento de afetividade entre os dois. Não importa tentar entender o porquê das ações de um, porque eles não procuram outra fonte de renda, etc. O filme é sobre aquela relação como é, uma narrativa honesta permeada por um “humor” latente ao cotidiano atípico do casal. Filmado em um Super-8 esteticamente potente, ritmado por Blondie.
Páginas de Menina
Assim como em Dizeres Íntimos, Páginas de Menina conta a história de duas mulheres separadas por uma circunstância da vida. Está em jogo ali o significado que elas criam para si nos momentos em que estão juntas, e como o relacionamento de pouco tempo transforma-se em uma forte experiência.
1 – Ingrid, descobrindo-se como mulher e descobrindo a vida.
2 – Sílvia, já experiente (Vera Zimmermann como um símbolo forte na trama), será influente direta na vida de Ingrid. Um filme essencialmente de visual, com arte de época muito bem feita e orçamento visivelmente superior ao da maioria dos filmes do festival.
3 – O terceiro elemento seria o vazio. Tanto o vazio de uma relação cessada e deixada para o futuro como um vazio da própria trama. Em conversa com Fernando Secco, da Revista Moviola, ele ressaltou o fato da narrativa ser grande demais para um curta-metragem. Concordo, e vejo neste vazio do filme um afastamento do espectador. Não é possível se importar com aquelas personagens em tão pouco tempo. Resta então, o preciosismo técnico.
Para Que Não Me Ames
1 – Um homem, preso, que nunca disse “eu te amo” e ama o travesti.
2 – Um travesti, presa, que gosta desse homem e sonha com perspectivas maiores para si. Ela é um símbolo de prazer aos presos, é o elemento tanto de sedução e satisfação como também é a portadora de uma doença contagiosa e, por isso, vítima. Esta doença é sua própria sexualidade.
3 – Duas prisões: a real, ambiente de violência pura contra o espaço alheio, e a prisão metafórica, a mesma que faz o homem não conseguir dizer “eu te amo”, e que o leva a negar a possibilidade de amor naquele ambiente.
O filme sobrevive muito bem sem a interferência existente antes de seu terceiro ato, sendo bem mais interessante nas seqüências da prisão do que nas passadas fora dela.
Tá
Um banheiro. Dois jovens.
1 – Um precisa de pó, dedo no ânus e sexo oral para obter uma ereção.
2 – O outro, está disposto a fazer tudo para a ereção alheia.
3 – O beijo dado ao final até poderia ser a solução de tudo, mas sua efetividade não é revelada. Eles apenas se beijam, e este gesto de simplicidade e emoção parece ser mais forte que qualquer outro investimento anterior. Um filme essencialmente sobre a banalização do amor, e como as suas manifestações podem ser repensadas.
Filmes citados:
Café com Leite (idem, 2007/ Daniel Ribeiro)
Depois de Tudo (idem, 2008/ Rafael Saar)
Dizeres Íntimos (idem, 2006/ Bruno Peres e Carolina Barres)
Desejos Iguais (idem, 2007/ Cecília Góis e Gaby Lima)
Meu Namorado é Michê (idem, 2006/ Lufe Steffen)
Páginas de Menina (idem, 2008/ Mônica Palazzo)
Para Que Não Me Ames (idem, 2008/ Andradina Azevedo e Dida Andrade)
Ta (idem, 2007/ Felipe Scholl)