
Em alguns filmes do II For Rainbow, pôde-se perceber a linguagem tendo uma expressão maior que a própria temática. Ao contrário dos documentários, a questão homossexual, nesses filmes, era um pressuposto para que a linguagem visual fosse explorada. Em muitos momentos, a homossexualidade servirá mais como um rompimento estético do que narrativo, explorando a imagem de mulheres com mulheres, homens com homens, travestis, michês e etc.
Bar A.K.A, busca explorar visualmente o surrealismo de um cenário de um tipo de bar onde um travesti é dono de uma anã que é dona de um homem. Nesse meio, mulheres têm relações com mulheres e tudo passa a ser um registro caótico de uma festa sem regras. Em meio à lascívia, várias câmeras buscam registrar aquele momento de forma mais agitada possível, misturando a estética do colorido com o preto e branco e propondo uma montagem agitada, de agressão visual. Infelizmente, mesmo tendo um esboço de proposta por trás, o vídeo acaba sendo vítima da sua própria intenção, e o caos se transforma em nada mais que um jogo de experimentação pouco instigante e confuso. Nada ruim em brincar com a percepção do espectador, mas até no caos é preciso conceito. Em Bar A.K.A, uma proposta interessante não é totalmente aproveitada, sobrando o fetichismo presente tanto na ambientação como na câmera.
Nostálgico é um vídeo trabalhado exclusivamente na montagem. Unindo várias imagens retiradas de internet focando o tema homo-erótico vintage, o vídeo busca colar fragmentos encadeando-os com uma trilha sonora também reaproveitada, resultando em um estudo de imagens históricas e seu reaproveitamento e efeito na atualidade. Um produto pouco interessante de se ver no cinema, dada a natureza VJ do produto (o montador André Ortega é profissional na área). Incorporado a um outro contexto, uma festa ou vídeo instalação, talvez o filme pudesse ter mais força. Sozinho, o filme não vai muito além do estudo de um arquivo e seu reaproveitamento.
Para Macedônio parte de um trabalho literário de Jorge Luís Borges, representando experimentalmente a relação do autor com Macedônio Fernandez, seu mestre. Buscando imagens de natureza mais contemplativa e solene, a direção compõe belos enquadramentos e utiliza muito bem o silêncio e imagens de arquivo em super-8, buscando uma áurea nostálgica, libertando a imaginação para aquela possibilidade de relações. Os dois, aqui, se complementam na encenação, compondo um vídeo de natureza poética sem se limitar ao fechamento narrativo. Uma interessante obra vinda da própria cidade de Fortaleza.
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A brincadeira entre os símbolos é a grande sacada de O Almoço (Considere um Jantar). O filme utiliza da brincadeira do filme de baixo orçamento que não possui verba o bastante para realizar visualmente certas cenas e as delega para a imaginação do espectador. Portanto, vários recipientes contendo milho são complementados com cartelas dizendo algo como “considere uma salada variada”, “considere uma lasanha” e por aí vai. Com isso, o filme estabelece uma relação entre uma família composta pelos pais, dois filhos pequenos, um casal heterossexual e um casal homossexual. O lance é que o homem do casal heterossexual deve ser considerado uma mulher, e o homem do casal homossexual também uma mulher. E nesta inversão de papéis, acaba sendo interessante pensar também na inversão de signos sexuais e suas chaves para o preconceito.
Ainda que o filme trate todas estas questões com humor, vale pensar como este jogo de “considerar”, de pensar algo como sendo outra coisa, pode também, ser uma crítica à não aceitação a certas imagens, à maneira como nos portamos com desconforto frente a, por exemplo, um casal homossexual se beijando. A nossa negação é, portanto, mais voltada para a imagem do que para o que está dentro dela, a opção sexual propriamente dita? Pensando por aí, talvez o filme possa ganhar maiores espectros além da brincadeira narrativa.
Filthy foi definitivamente a grande surpresa do festival. Ao subir no palco para apresentar o filme, a representante do grupo Queer Fiction, Bárbara (no filme assina dirty B), disse se tratar de uma proposta subversiva, de questionamento aos padrões. De fato, pode-se dizer que o filme quebrou todos os padrões, pelo menos dentro do festival. Partindo de uma brincadeira inocente entre duas garotas e um ursinho até chegar ao sexo explícito entre as duas garotas, o urso e pedaços de carne (extraído do urso), o filme não se poda em nenhum momento. Utilizando referências do pornô e ao mesmo tempo questionando esta linguagem (as personagens olham para a câmera provocando o espectador), o filme aborda o ser humano no seu estado puramente físico e instintivo.
Em certo momento, uma garota faz sexo oral em outra enquanto um pedaço de carne crua fica pendurado no meio da cena. O enquadramento, que tanto mostra a elasticidade da pele como a carne, atribui um valor direto de semelhança entre as duas coisas, o ser humano como realmente um pedaço de carne e o sexo como a mera colisão entre as duas coisas, uma experimentação corporal. Vale chamar atenção para a trilha sonora do filme, Lynchiana, que sustenta uma tensão anti-tesão durante o filme, estruturando-o como um manifesto do incômodo e do bizarro. Ao fim, quando não poderia ser mais explícito, Filthy rompe completamente: as garotas urinam no objeto usado, uma ação provocativa à figura masculina simbolizada pelo urso de pelúcia e fechando, da melhor forma possível, a “brincadeira” iniciada no começo do filme.
Filmes citados:
Bar A.K.A (idem, 2008/ Túlio Bambino)
Nostálgico (idem, 2007/ Eduardo Mello)
Para Macedônio (idem, 2008/ Claudemyr Barata)
O Almoço (Considere um Jantar) (idem, 2007/ Thiago Ricarte)
Filthy (idem, 2007/ Queer Fiction)